Esta imagem foi obtida à margem de uma das muitas sessões fotográficas que realizei sobre a torre Burgo, na Boavista, projecto do meu amigo Eduardo Souto Moura, a quem a dediquei. A sudoeste da torre resiste um bairro popular e o imediato diálogo que proporciona com a elegante torre acordou em mim uma das mais fortes referências cinéfilas que tenho - Jacques Tati. Não que considere, neste caso, que a torre Burgo seja um avassalador “King Kong” a devastar o casco histórico da minha querida cidade do Porto, mas a imagem estava lá e remeteu, dentro de mim, para os arranha-céus do Playtime (feitos em estúdio e que levaram Tati à falência) com os reflexos longínquos da esplendorosa cidade de Paris nos vidros e nos aços, sendo que esses reflexos foram as únicas “vivências” a que os automáticos e acéfalos turistas arrebanhados puderam aceder.
Passar desta imagem para o tema “Esperança” como proposto pelo jovem Padre António Valério (essejota) constituía uma autêntica “quadratura do círculo”. Quando muito poderia integrar um discurso sobre a esperança urbana de conservação do nosso património e da nossa história; mas essa, a mim, pareceu uma abordagem demasiado específica.
A Esperança é, por essência, um atributo ontológico que eu penso emergir na história do Homem à medida que este vai consolidando o conceito de tempo e, com ele, a ideia de Futuro. Podemos considerar a Esperança como uma das mais poderosas armas na turbulenta luta do instinto de Eros contra Thanatos, presente de uma maneira mais explosiva na adolescência e no início da juventude. É, de facto, tarefa impossível imaginar a juventude sem o forte impulso da Esperança; com a idade e as cãs da experiência, esse impulso não acaba, mas, de certo modo estabiliza e dá menos resposta à nossa inquietação existencial. Eu que sou ateu entendo que o conceito alargado de Esperança é transversal às concepções do Mundo e do Homem no seu devir, isto é, nenhum sistema filosófico, nenhuma religião, nenhuma ideologia pode apropriar-se de algo que, por ser intrínseco ao Homem é tão diverso quanto ele, sendo que, para mim, o respeito por essa diversidade é a matriz mais sublime. Agora, nestes tempos de “desesperança”, em que a contingência nos empurra para dois pecados maiores, a uniformidade e o silêncio, é hora de cada um se afirmar como projecto. De Esperança.
 Luís Ferreira Alves é fotógrafo de Arquitectura. Nascido em Valadares em 1938, fotógrafo profissional desde 1984, colabora regularmente com revistas nacionais e internacionais, participa em exposições e realiza documentários vídeo. |