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Edição 98 | 15 Maio 2013   
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Subindo a montanha rumo à aurora
MICHAEL-PAUL GALLAGHER, SJ


Num tempo em que se fala tanto de crise e se espelha a crise no rosto e nas palavras de tantos que nos procuram e batem à porta, poderíamos perguntar-nos: Ainda há lugar para a esperança? Que tem a Igreja a oferecer a este desânimo perante a crise? O que é que está em crise? Porque é que chegamos à crise? A crise acontece porque perdemos valores, referências, sentido da vida, Deus... que depois se repercute nas mais diversas áreas da vida social.

A crise temo-la tocado e experimentado na imensa quantidade de pessoas, que de uma forma muitas vezes tão discreta e escondida, se abeiram de nós, seja vindo bater à porta do Carmelo, seja por telefone ou por e-mail para encontrar um coração que as escute nas suas aflições e problemas, pedir uma palavra de conforto, encontrar um sorriso ou mesmo algo para comer e que sempre damos e partilhamos… Num tempo em que se diz que não há mais lugar para Deus, pois é precisamente aqui, no Carmelo (espaço todo reservado a Deus), que tantos, cansados e desanimados da vida, e depois de beber talvez em tantas cisternas rotas e vazias à procura de força, vêm abrir o coração cansado, sem esperança e deixar aquilo que talvez não confiam a mais ninguém, porque, como tantas vezes nos dizem: “tudo aqui fica, no segredo e no Coração de Deus”… E não é tanto pelo que levam – como também tantas pessoas nos dizem - materialmente falando - mas é o que encontram e que pode – talvez não resolver os problemas – mas dar-lhes, um sentido para aquilo que não tinha qualquer sentido. A carmelita, sem sair da sua clausura, vê todos os dias a porta da clausura forçada pela imensa quantidade daqueles que, sem ela os chamar ou se fazer anunciar, vêm atraídos por algo que é, com toda a certeza, muito superior a ela… A vida da carmelita é uma vida que não se anuncia, mas irradia, no silêncio; grita com o silêncio: é “música calada, solidão sonora” (S. João da Cruz); e são os corações pobres, aflitos e sem mais nada a que se agarrar que a ouvem e dela se abeiram, para descansar um pouco…

Porquê a crise? A crise foi sempre, no cristianismo, e como podemos ver ao longo da história do povo de Deus, o lugar preferencial para Deus entrar em diálogo com o homem. Deus escolheu o deserto para Se encontrar com o Seu povo e isto não foi um acaso, porque é na experiência do deserto suportado por dias, meses e anos que o homem é despojado das suas seguranças, dos seus armazéns de alimento e bebida, de tudo o que é supérfluo, até lhe chegar a faltar quase o essencial para sobreviver… Foi assim com o Povo de Deus, é assim na vida de cada um de nós, é assim na vida de uma carmelita. A crise – seja de toda uma sociedade, seja na vida cada um de nós, em particular - é o deserto onde Deus marca o Seu encontro connosco, porque só aí, nesses momentos dolorosos, quase de desespero, que vazios de todas as seguranças e apoios que julgávamos inabaláveis, sem nos podermos agarrar a mais nada, deixamos finalmente que Deus nos encontre e tenha espaço para nos falar ao coração, nos mostre a Sua presença de Amor, esse Amor imenso, infinito, o único capaz de saciar o nosso coração, porque este “não se enche com menos que o Infinito” (S. João da Cruz); este Amor que Deus nos tem, tem um nome, tem um rosto: é Jesus que encarnou na nossa história, se fez homem como nós, morreu, mas ressuscitou, está vivo, é o nosso amigo fiel e companheiro de viagem; é nas crises, nos “desertos” da nossa vida que caímos na conta que só n’Ele está o sentido último da nossa vida, para nos dizer que a crise da nossa vida se resolve pelo amor, como Ele nos veio ensinar: “Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei”. O Amor resolve todos os problemas, o Amor traduzido na partilha, em solidariedade, em amizade, perdão e acolhimento.

Quem descobriu este Amigo, encontrou a verdadeira esperança e quem aprende a viver desta esperança – dando a vida e amando como Ele - verá florescer o seu deserto num belo jardim e será capaz de dar vida e esperança a tantos outros “desertos” que esperam esta vida nova, a Esperança! E quem vive a esperança, vive na Alegria! A Alegria há-de ser o rosto da esperança; a Igreja há-de testemunhar e propor a Alegria, porque a Alegria é o que brota da experiência de amar e ser amado e esta experiência dá-no-la o encontro com Jesus Ressuscitado, vive-a quem ama e dá a vida como Ele!

Poderia dizer, retomando ao que ao início dizia, que quem se abeira do Carmelo, recebe deste “Jardim de Deus”, onde se vive a experiência de amar e ser amado, talvez também alguma ajuda material, mas sobretudo – como tantos e tantas nos partilham mais tarde - aquela Esperança para o caminho da vida, que é Jesus, aquela Alegria inexplicável para – apesar de das nuvens e das tempestades da vida – continuar a acreditar que a vida é bela e torna-a bela Aquele que é o Autor de toda a Beleza, Deus-Trindade que, em Jesus, Se fez Deus-connosco, Amigo sempre presente, sempre ao nosso lado!



Irmãs Carmelitas de Fátima
01.03.2012







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