De: Éric Rohmer
Com: Charlotte Véry, Frédéric van den Driessche, Michel Voletti e Hervé Furic
Drama, M/12, França, 1992, 114 min.
Trailer
Digamo-lo logo: Éric Rohmer é um dos nossos realizadores favoritos. É-nos difícil falar de uma sua obra com a paz dos imparciais. Estruturados em séries (o Conto de Inverno é o segundo dos Contos das Quatro Estações), os filmes de Rohmer são o que poderíamos chamar de filmes falados, em que toda a acção assenta na palavra, progredindo pelo desdobramento da interioridade matriosca dos personagens até à surpresa. Poucos realizadores terão conseguido revelar o humano na tela com igual honestidade e completude, sem simplificações, sem concessões.
Conto de Inverno (título roubado à peça homónima de Shakespeare) começa curiosamente num verão. Félicie conhece Charles, a quem se entrega inteira. O romance acaba, porém, por não ter continuidade, por um erro parvo (no sentido etimológico e actual da palavra): quando trocam as moradas, Félicie engana-se no nome da sua rua (tinha mudado recentemente de casa) e os dois nunca mais se vêem. Sobra-lhe apenas, como memória desse verão, uma fotografia e a filha que lhe nasce. A sua paixão não extinta por Charles, que continua a procurar entre a multidão, impede-a de ter uma vida amorosa estável. Oscila entre Loïc, intelectual e católico, e Maxence, o seu patrão. É incapaz, porém, de se comprometer definitivamente com qualquer um deles, por serem fundamentalmente, podemos dizê-lo, tentações, desvios à verdade do seu coração: Charles.
Não é ao acaso ou ao martelo que introduzimos aqui um termo teológico. Rohmer, católico ele mesmo, tem em Conto de Inverno um dos seus filmes mais abertamente espirituais. Sob a superfície de uma comédia romântica (no sentido mais puro do termo), desenvolve toda uma composição (com marcas do pensamento de Simone Weil) sobre a alma e a sua paixão necessária por Deus (pois só aí, de facto, como dizia Agostinho, descansa). A alma pode tentar esquecê-lo, mentir-se, mas isso só conduz à insatisfação e perdição (no sentido de estar perdido: sem rumo). Cabe ao sujeito, também na noite escura, guardar a fidelidade (porventura o grande tema do filme), não se degradar, aceitar o desafio cristão da exigência, de não compactuar com a gravidade, de apontar ao magis. Quando o coração tomou tal decisão de corpo inteiro, quando se prepara: Deus vem. Não é inocente que o filme decorra ao longo do advento, período em que somos convidados, também nós, a limpar o espírito dos falsos ídolos e a esperar o Deus verdadeiro, criança. É precisamente Elise, a filha de Félicie, quem a conduz a uma igreja, onde ela, com Deus, percebe por fim que não repousará senão em Charles. De imediato abandona tudo (como o comprador da parábola da pérola): a escolha, entre a vida habituada e a lucidez da verdade, nem se coloca, diz, para que possa sequer ser feita. E para nós, neste Natal: ainda existe escolha?
Não é ao acaso ou ao martelo que introduzimos aqui um termo teológico. Rohmer, católico ele mesmo, tem em Conto de Inverno um dos seus filmes mais abertamente espirituais. Sob a superfície de uma comédia romântica (no sentido mais puro do termo), desenvolve toda uma composição (com marcas do pensamento de Simone Weil) sobre a alma e a sua paixão necessária por Deus (pois só aí, de facto, como dizia Agostinho, descansa). A alma pode tentar esquecê-lo, mentir-se, mas isso só conduz à insatisfação e perdição (no sentido de estar perdido: sem rumo). Cabe ao sujeito, também na noite escura, guardar a fidelidade (porventura o grande tema do filme), não se degradar, aceitar o desafio cristão da exigência, de não compactuar com a gravidade, de apontar ao magis. Quando o coração tomou tal decisão de corpo inteiro, quando se prepara: Deus vem. Não é inocente que o filme decorra ao longo do advento, período em que somos convidados, também nós, a limpar o espírito dos falsos ídolos e a esperar o Deus verdadeiro, criança. É precisamente Elise, a filha de Félicie, quem a conduz a uma igreja, onde ela, com Deus, percebe por fim que não repousará senão em Charles. De imediato abandona tudo (como o comprador da parábola da pérola): a escolha, entre a vida habituada e a lucidez da verdade, nem se coloca, diz, para que possa sequer ser feita. E para nós, neste Natal: ainda existe escolha?
[filme editado pela Midas/FNAC]



