| Se alguma coisa poderíamos confirmar com o texto último do padre Alfredo Dinis seria a de que a fé não é óbvia. Curiosamente, os limites das nossas respostas às perguntas sobre Deus estão intimamente ligados à interrogação acerca da nossa possibilidade de conhecer não apenas Deus, mas as próprias coisas. Historicamente, a procura de Deus passou por diversos períodos. Momentos houve em que a Ordem e a Beleza do cosmos bastavam para falar de um Absoluto Divino. No entanto, logo que, culturalmente, nos tornámos atentos (às vezes quase obsessivamente) ao facto de que conhecer é, de algum modo, contar histórias humanas, a questão deixou de ser linear. Deus passou a ser visto como uma possível personagem mítica entre tantas outras que compuseram a grande narrativa cultural. O extraordinário texto do professor João Duque, que agora apresentamos, abre um debate antigo e inesgotável em teologia, que corresponde à investigação sobre a possibilidade de pensar [em] Deus antes de recorrer à revelação. No fundo, o que tem de humano a fé em Deus? Haverá vias directas de acesso? Se Deus existe, como poderemos descobri-l’O? A razão basta, para esse processo? Como podemos testar as respostas da fé? Onde está Deus para que possamos conferi-las? A Razão da Fé consiste, pois, numa investigação sobre a busca humana do divino. De onde surgiu a ideia de Deus? Humaniza-nos ou aliena-nos? Será razoável crer? E aquilo em que cremos: será consistente? Nota: os comentários são da responsabilidade do editor.
Teologia natural ou filosófica será o modo de pensar o valor racional da fé teológica, através do uso de recursos ditos naturais, sem envolvimento explícito da fé sobrenatural. Embora tenha havido quem declarasse a impossibilidade dessa tarefa, a tradição católica sempre lhe foi tendencialmente favorável, tendo a respectiva teologia desenvolvido fortes argumentos em seu favor. [ver comentário 1] Sem querer simplificar demasiado a questão – em si mesma inesgotável – proponho a concentração do assunto em três níveis, que me parecem poder condensar um tratamento contemporâneo do problema, sem esquecer o fundo histórico em que se enraíza: em primeiro lugar, convém considerar a racionalidade inerente ao próprio acto de crer; em segundo lugar, proponho que pensemos a dimensão racional do crer, com base no dinamismo do desejo humano; por último, apresentarei, em traços largos, a via que pode relacionar o pensamento lógico com o conhecimento de fé. 1. Algumas das principais correntes filosóficas do séc. XX prestaram um grande serviço à superação da aparente dicotomia entre crer e saber, entre crença e racionalidade. De facto, elas conseguiram mostrar em que medida a crença, em sentido geral, é uma atitude natural ao ser humano, anterior a qualquer modalidade de saber. Mesmo o mais estrito saber científico assenta sempre em certas premissas que implicam uma adesão crente, da parte do investigador, como é o caso da crença nas conclusões da comunidade científica. Esta presença da crença em todas as modalidades de racionalidade humana manifesta a racionalidade fundamental do próprio acto de crer. [ver comentário 2] É claro que isso não descarta a possibilidade de que a crença em determinados conteúdos seja irracional. O que fica claro, contudo, é que não existe uma oposição formal fundamental entre crença e racionalidade, antes existe uma interpenetração, a ponto de se poder falar em crença como um modo próprio de racionalidade. Esta percepção da racionalidade do crer, contudo e porque não se confronta com os conteúdos desse crer, é importante para a consideração das razões da fé, mas não é suficiente. É preciso pensar a pertinência racional dos próprios conteúdos. 2. Ora, quando falamos em conteúdos da fé, temos de ser claros e considerar que, no nosso contexto, estamos já a falar explicitamente da fé cristã. Nesse sentido, a questão que se levanta poderia formular-se do seguinte modo: como podemos nós pensar a pertinência racional dos conteúdos da fé, se apenas os podemos compreender pela fé? A mais frequente via de resposta a esta questão poderá ser assim sintetizada: a validade racional dos conteúdos da fé manifesta-se na medida em que estes correspondem a modos de ser fundamentais do ser humano, considerado na sua natureza própria. Ora, parece ser possível demonstrar que o ser humano é, por natureza, animado por um desejo que o conduz além das suas possibilidades de auto-satisfação. Ou seja, o dinamismo do desejo humano manifesta que a natureza humana contém em si mais do que ela mesma – é, por assim dizer, naturalmente sobrenatural. A dádiva sobrenatural não é extrínseca à natureza humana, precisamente porque vem ao encontro desse desejo que lhe é inerente. Nesse sentido, a fé cristã é considerada realização da mais profunda orientação de sentido do ser humano. [ver comentário 3] Isso implica, evidentemente, determinada compreensão da realidade, que é por isso assumida como correspondente à verdade do próprio ser humano. É isso que significa a famosa máxima clássica, credo ut intelligam (creio, para que compreenda) – isto é, para que mais profundamente perceba o sentido de tudo e de mim mesmo. 3. Mas a atitude crente não se limita a valorizar a sua racionalidade própria, no importante contributo para uma melhor compreensão do sentido de tudo, enquanto sentido dado por Deus. O crente também aceita o desafio de se deixar interpelar por outros modos de racionalidade, sobretudo pelo pensamento lógico e mesmo pelo pensamento científico. Esse dinamismo foi classicamente descrito com a expressão fides quaerens intellectum (a fé a questionar a razão). Em muitos casos, esse questionamento não é só algo acrescentado ao acto de crer, mas faz parte do processo que conduz à fé e ajuda à permanência nela. Por isso se considerou, também, a importância da inteligência, para que se possa crer: intelligo ut credam. De um modo ou de outro, este percurso de diálogo da fé com outras modalidades de racionalidade permite evitar estratégias de imunização da fé, denominadas genericamente fideísmo, e que apenas reduzem o acto de fé à aceitação cega de algo que seja comunicado a partir do exterior. É para fazer frente a esse perigo que a fé surge sempre acompanhada pelo exercício do pensamento crítico, seja a partir de critérios internos, seja a partir de critérios externos. [ver comentário 4] Os dados da ciência contemporânea podem, neste campo, ser importantes. É claro que não são eles a definir a verdade dos conteúdos da fé. E é claro que é importante distinguir bem os níveis em que cada modo de conhecimento se situa. Mas esses dados ajudam a um trabalho crítico sobre a formulação e compreensão da fé, para ajudar a tornar mais credíveis as suas formulações. Porque o facto de a fé implicar sempre certa dimensão paradoxal não exclui a necessidade de o crente se empenhar na discussão pública da validade daquilo em que acredita. Comentários: 1. A questão do acesso a Deus – que é, no fundo, aquilo de que se está a falar – está longe de ser inócua. As tentativas de resposta tiveram nos seus extremos duas posições contrárias: (a) de um lado afirma-se que Deus, sendo absoluto, não pode ser compreendido por um ser precário, pelo que a fé só pode ser um puro dom; (b) no extremo oposto, afirma-se que o homem, pela sua liberdade e inteligência, tem condições para chegar a Deus. Com a primeira hipótese procura-se defender a liberdade e iniciativa divinas; com a segunda, sublinha-se a liberdade humana. Naturalmente, a história da teologia está recheada de aproximações diversas. E, de facto, nesse universo de tentativas, os teólogos católicos tenderam, habitualmente, para a segunda versão. É neste sentido que encontramos o famoso argumento de santo Anselmo (http://pt.wikipedia.org/wiki/Argumento_ontol%C3%B3gico), as vias de São Tomás de Aquino (http://pt.wikipedia.org/wiki/As_cinco_vias), etc. 2. No séc. xx começou a questionar-se a ideia de pensamento crítico. Segundo ela, devíamos “esvaziar” a nossa mente para, de uma forma imparcial e neutra, conseguirmos ver as coisas como elas realmente são. Por isso, antes do conhecimento devemos partir da dúvida: o que é isto? Ora, o que muitos autores vieram mostrar é que, de facto, a dúvida raramente é o ponto de partida do conhecimento. Nascemos numa cultura que nos oferece uma linguagem, hábitos, formas de ver o mundo. Esse património (que seria o conteúdo da crença) serve-nos de base para a nossa reflexão. Onde entra a dúvida, aqui? Fundamentalmente, a dúvida é sempre um momento posterior, porque só duvida quem já conhece alguma coisa. Porém, não é por isso que a dúvida deixa de ser importante. É pela dúvida que podemos justificar de modo razoável as nossas perspectivas. Nesse processo, vamos depurando o património recebido (seja ele cultural, científico, religioso, até linguístico). Com a dúvida, algumas coisas caem, outras consolidam-se, outras transformam-se. Portanto, o conhecimento é como uma crença justificada. Desta forma, podemos perceber de que modo o crer está presente na experiência humana. Somos feitos de crença. (http://pt.wikipedia.org/wiki/Filosofia_da_linguagem_comum) 3. Entre as grandes críticas à fé encontramos a da suspeita de que ela não passa de uma alienação. Neste sentido, a fé, ao acenar com a ideia do “paraíso futuro”, não passaria de uma ilusão. A fé seria como que a resposta fácil para a dura certeza da morte. No entanto, longe de ser essa “fuga à realidade”, a fé parece remeter para a própria existência. O desejo de “mais” (mais vida, mais bondade, mais relação) está enraizado na vida humana. Nesta medida, a fé mostra-se “humanamente razoável” na medida em que acompanha e promove o próprio processo de “nos tornarmos humanos”. Por isso, a fé apresenta-se, num primeiro momento, como “observatório da própria humanidade”. O “crer” será como que um caminho de autocompreensão e autorrealização. No limite, esse será também o grande teste da fé: a sua razoabilidade cresce na medida em que nos incita a sermos cada vez "mais humanos". 4. Até este ponto, o texto procurou apresentar o seguinte: (a) o acto de crer pertence à nossa estrutura humana. Somos herdeiros de formas de ver o mundo (língua, formas de sociabilização, conhecimento, cultura, religião). É a partir delas que nos situamos no mundo. Pela dúvida podemos avaliar a consistência dessas “crenças”, a ponto de conhecermos os seus próprios limites (históricos, políticos, etc.). Portanto, o conhecimento crítico é, no fundo, uma crença justificada; (b) num segundo momento tentámos ver qual a relação entre o crer e os desejos humanos. Como vimos, uma das grandes críticas à fé prendia-se com a suspeita de que, no fundo, ela é uma projecção de nós mesmos: deus é uma criação nossa. Por isso pode ser tão “perigosa”… No entanto, parece que o crer – nas suas formas saudáveis –, longe de oprimir, potencia o que temos e queremos de melhor. A fé acompanha os processos de humanização. Nesta altura, contudo, impõe-se uma pergunta. A fé é razoável enquanto atitude humana; mas, será que os seus conteúdos também são razoáveis? Para responder a esta pergunta temos que analisar a própria fé. É neste sentido que se articulam aquelas máximas latinas, muito famosas na história da teologia: a fé convoca o pensamento (ou seja, faz-nos pensar); o pensamento questiona a fé (ou seja, faz-nos aprofundar aquilo em que cremos). Esse é o movimento pendular do crer.
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