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Edição 100 | 15 Junho 2013   
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Não sou aquilo que o espelho me devolve todas as manhãs. Não sou a conclusão que se tira dos meus gestos, nem o conjunto de adjectivos que o mundo tem a dizer sobre mim. Não sei bem o que sou mas o meu rosto verdadeiro, a cara pela qual Deus me conhece, está num lugar desconhecido do grande público: o espaço entre o que faço e as razões do meu coração. Por outras palavras – eu serei aquilo que fizer da minha liberdade. Na definição da identidade, as características que me caíram do céu não contam tanto quanto o caminho que com elas decido seguir.
Posso viver de duas formas: como gosto ou como devo. Há a ideia de que sou tanto mais livre quanto mais for capaz de seguir as minhas próprias inclinações. É uma ideia errada, baixa. Fazer o que me dá na gana não é ser dono de mim; é ser escravo das pressões anónimas, dos desejos que me habitam mas relativamente aos quais sou passivo. Ter o prazer como lei corresponde a entregar a vida nas mãos de estranhos. A liberdade não tem nada a ver com isso – guarda uma luz muito mais intensa e um peso infinitamente mais árduo. O que nela há de sagrado e difícil é a oportunidade de tornar a minha existência um acontecimento de sentido, uma nova criação, uma obra participante do amor que nos foi dado a todos. Ao lado desta oportunidade, que é o grande tesouro dos homens, a hipótese de fazer só aquilo para que se está naturalmente virado surge como a bestialidade que de facto é.
Mas que passos dei eu na direcção daquilo que é realmente bom? Que esforço fiz para viver o Evangelho? Que ligação há entre o que a minha boca diz e as ruas onde a minha vontade tem andado? A primeira coisa importante no momento de pensar o que tenho sido é não ceder à falsa ingenuidade. Não vale dizer que daquela vez procurei a justiça, se na verdade me limitei a tropeçar nela. Não vale pôr na lista das coisas boas aquelas explicações que dei, se o fiz só para me sentir bem. E não vale esquecer que há pessoas que estudam muito pelas mesmas razões que levam outras a não estudar. Olho com honestidade para o que tenho feito, para as intenções que me levaram a agir assim, e verei que aspecto tem o meu rosto.
São Lucas conta que, depois de terem sido ameaçados e agredidos no Sinédrio por falarem de Jesus, os Apóstolos regressaram a casa cheios de ânimo para pregar a notícias das notícias. Parece absurdo, parece masoquismo, mas é outra coisa. Trata-se de uma imagem perfeita da liberdade. Pedro, João e companhia tinham a presidir às suas vidas uma regra mais alta do que a própria sensibilidade. E eu?

Simão Lucas Pires
01.10.2011







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