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Não querendo encarnar o ‘velho do Restelo’, à medida que o tempo vai passando, na minha formação como padre jesuíta, vou percebendo que a ‘racionalidade’ pouco nos conquista. Recordo os volumes, absolutamente divinos na lógica expositiva, mas que não agarravam a nossa fé! Estou convencido que se o nosso conhecimento não cria uma imagem é fraco conhecimento e mais não será que uma relíquia no depósito das memórias! Viva a imaginação!!
Ouvimos a palavra ‘imaginação’ e o mais das vezes sentimo-nos atirados para um conceito vago… uma actividade mental, criadora de imagens e fantasias que nos levaria nas cavalgadas do sonho… ‘pés assentes na terra é o caminho seguro’, dizem vozes que adivinho no meu pensamento! Afinal, quem é que nunca teve que lidar, e educar, a famosa ‘maluquinha do sótão’? Aquela famosa senhora que sempre pede a nossa atenção quando temos que estudar… sentados à secretária damos por nós longe, muito longe, dos nossos livros ou da nossa oração! Mais vale é agarramo-nos aos livros!
No entanto, a imaginação tem ultimamente feito derramar os tinteiros dos filósofos como uma faculdade a ser estimulada pelo homem de amanhã e, muito trabalhada, nas crianças de hoje. É muito curioso - e sobretudo bonito - perceber que a imaginação é merecedora de atenção já no passado e, nomeadamente, no caminho da vida espiritual.
Sto. Inácio de Loyola nos Exercícios Espirituais (EE) dedica-lhe um espaço de particular importância. Quando somos interpelados a contemplar a Vida Pública de Jesus (chamada 2ª semana dos EE) St Inácio introduz a chamada aplicação de sentidos ‘ver as pessoas, com a vista imaginativa, meditando e contemplando, em particular as suas circunstâncias, e tirando algum proveito” (EE122). Nos números seguintes desenvolve esta actividade no plano dos cinco sentidos… ‘ouvir com o ouvido o que falam ou podem falar e, reflectindo em mim mesmo, tirar disso algum fruto’ (EE123).
O que é que daqui resulta? Resulta claramente que a imaginação não é assim falando uma actividade livre… provém do verbo latino imaginor que significa representar no espírito algo que nos é dado previamente. Por exemplo, um episódio da vida de Cristo… ver o Seu olhar, a forma como fala, como interage com as pessoas e, depois, ‘tirar proveito’. Mas como é possível ‘tirar proveito’ da actividade imaginativa?
Facilmente recordamos quando lemos um livro, o autor tem a capacidade de ir dirigindo a nossa imaginação… coordenadas temporais, o ambiente, o temperamento da personagem, e todo um processo interno desencadeia imagens recheadas de detalhes que tão pouco são descritos. O mais fascinante é descobrir o quanto de nós vai nessa actividade imaginativa… é um trabalho a dois. Do autor e nosso! Projectamos tudo aquilo que somos na nossa imaginação! Assim se passa com a leitura do Evangelho. O evangelista refere-nos que, após a tripla negação de Pedro, Jesus olhou-o e Pedro chorou amargamente… Jesus era transportado para todos os lados, sujeito a todo o tipo de perguntas , era noite na vida de Jesus e fez-se noite na vida de Pedro… fixo este olhar de Jesus em Pedro que o faz chorar… o que chora Pedro? A sua negação? A perda de Jesus? O sentir-se perdido e sem forças para dizer “sim eu sou um deles!”?
Esta imagem fala-nos de uma forma que só nós conseguimos interpretar! Fala à nossa vida! Projectamos a imagem, construímos cada detalhe, conduzidos pelo texto e não pela fantasia, e podemos aprender tanto de nós e de Deus…
Todos imaginamos, criamos imagens sobretudo de como gostaríamos de ser e de quem gostaríamos de ser… o Evangelho oferece à nossa imaginação espiritual a realidade mais profunda de quem é Jesus para cada um de nós….é no confronto dessas duas imagens que se joga a nossa conversão. O meu eu que aparece que olha e contempla Jesus! Assim sendo, não vale ouvir a Palavra de Deus sem a imaginar!!
Finalmente, o golpe para o Espírito Santo! Tantas e tantas vezes ouvimos comentar ‘mas ó Sr. Padre eu lá consigo imaginar Jesus… não vejo o rosto… não consigo!’ Esse é precisamente o caminho! Se soubéssemos não precisávamos que o Espírito Santo nos fizesse imprimir a imagem de quem Ele é. Imagem que não muda mas que vai assumindo contornos mais definidos até ao dia em que O veremos face a face.
Exercício: Quando lemos S. Lucas 'Entrando, não encontraram o corpo do senhor Jesus. Aconteceu que estando perplexas com isso, eis que apareceram junto delas dois homens com vestidos resplandecentes.’ (Lc 24, 4-5). Não é verdade que, entrando nós numa Igreja, a perplexidade devida toma lugar? Perplexidade de olharmos o altar e não vermos o corpo físico do Senhor! Resta sobre o altar a toalha que O envolveu... as duas velas acesas e vermos estes homens resplandecentes que nos gritam o Senhor Ressuscitou? Talvez valha a pena ler uma outra vez qualquer passagem do Evangelho e olhar, ver, sentir, tocar as imagens que o texto nos sugere! |
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Afonso Seixas Nunes, sj
01.10.2011
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| Comentários |
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2011-10-01 22:56:41 João Delicado, Roma O teu texto fez-me lembrar uma das minhas aulas de Novo Testamento em que o prof. insistia na importância lúdica das parábolas: queria ele dizer que as parábolas são decisivas na comunicação do mistério e do transcendente porque nos "mete em jogo", obriga-nos a participar na história, mete-nos dentro. E, se não temos essa capacidade lúdica, então perde-se a chave de compreensão de tudo.
Decididamente, a imaginação faz parte dessa capacidade lúdica.
Obrigado pela reflexão!
Abraço! 2011-10-01 01:37:31 Madalena Cardoso da Costa, Coimbra-Aveiro-Lx Gostei muito Afonso. E muito aprendi nos EE, e com os EE a contemplar o lugar (as +essoas, as falas) ... e a tirar fruto.
Bjinho
Madalena CC Mais comentários |
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