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Edição 98 | 15 Maio 2013   
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Ao longo dos últimos meses, tenho tido a graça de acompanhar dia após dia a descoberta do mundo por parte de um recém-nascido. A fonte de metáforas que encontrei nesse processo – tão antigo e tão incrivelmente fresco em cada nova criança – tem sido para mim motivo de reflexão. Neste mês de regresso de férias, ocasião de recomeços e de novos propósitos, parece-me apropriado partilhar alguns dos pormenores que tenho observado e que poderão ser inspiradores.

Reparemos, em primeiro lugar, no olhar amoroso com que uma criança de dois meses contempla o rosto da mãe. Quando a mãe se aproxima e olha para o seu bebé, quando lhe sorri ou fala (mesmo se for só ao longe e o bebé se limitar a ouvir a sua voz), todo ele se ilumina e se transfigura. Mantém os olhos fixos no objecto da sua adoração e sorri embevecido. De onde nos vem esta tão precoce capacidade de amar?

É quase assustador pensar que esta adoração possa provir de uma espécie de imprinting de tal forma inato, que nenhum progenitor, por mais negligente que seja, lhe escapa. Recentemente, cruzei-me num parque com um grupo de crianças de um lar da Santa Casa da Misericórdia e travei conversa com uma delas. Tinha talvez uns nove anos e comentou num tom propositadamente alegre que já não tinha idade para ser adoptada. Reagi à provocação e perguntei-lhe se estava feliz por isso. Disse-me que sim: “porque assim ainda posso voltar para os meus pais”. Explicou-me uma voluntária que acompanhava aquelas crianças que este discurso é habitual. Por mais que sejam maltratadas e tenham de ser retiradas às famílias através de processos judiciais complicados e conflituosos, as crianças continuam sempre a sonhar um regresso a casa, um “mundo paralelo” onde os pais serão diferentes, melhores, e todos serão felizes. Em cada fim-de-semana que passam com a família de origem novamente se iludem e desiludem, constróem castelos de cartas e vêem-nos esfumar-se no embate com a realidade dos factos. E regressadas à instituição de acolhimento, quase sempre muito mais perturbadas do que antes do dito fim-de-semana, recomeçam devagarinho a sonhar, esperando na capacidade dos pais de retribuir o seu amor tão incondicional.

Há outra característica dos bebés que se relaciona com esta: a total transparência e entrega com que se exprimem através de todos os sentidos. Os bebés não pensam, sentem. E como não falam, expressam através de todo o seu corpo – olhos arregalados, boca sorridente ou choro imediato, membros que esbracejam e esperneiam nervosamente, costas que se arqueiam a pedir para que alguém lhes pegue – aquilo que sentem, desejam, gostam ou não gostam. É tudo imediato, espontâneo, sem segundos sentidos ou segundas intenções. No espaço de um ano ou pouco mais aprenderão, como é natural, a prever a resposta do mundo àquilo fazem ou dizem. Aprenderão a chorar ou a rir segundo a ocasião e de acordo com a sensibilidade da pessoa com quem estão, procurando, como todos nós, comunicar através de expressões intencionais do rosto e da voz, e até “manipular” os sentimentos dos outros. Mas para já não. O bebé é a manifestação pura do presente, aquilo que sente é aquilo que espontaneamente transparece, de forma integral e coerente.

Esta entrega total reflecte-se também na forma como os bebés se dedicam a cada actividade. Tudo suscita a sua curiosidade e os atrai, ao mesmo tempo que tudo lhes suscita esforço. E por isso o seu dia é um desenrolar de tarefas hercúleas entusiasticamente empreendidas. Virar a cabeça, pegar num brinquedo, levantar o pescoço, pôr o pé na boca, sentar-se sozinho, todas as actividades, desde as mais simples às mais complexas, são treinadas e executadas vezes e vezes sem conta, num esforço permanente para tudo. Ao contrário dos adultos, que tendem a poupar energia, sobretudo a nível físico, e cada vez mais à medida que os anos passam, os bebés entregam-se totalmente a cada desafio, até caírem exaustos no sono da nova sesta.

Esta actividade permanente surpreende também pela sua utopia. Os objectos desejados são olhados com sofreguidão, mesmo à distância de vários metros, ao mesmo tempo que os bracinhos se esticam para alcançá-los. Nada é considerado inacessível à partida, nada é impossível, tudo vale a pena. De resto, os bebés não distinguem o normal do extraordinário, surpreendem-se com o soar das badaladas de um relógio com a mesma maravilha com que reagiriam ao rugir de um leão em plena Avenida da Liberdade. O mundo é um circo e há que experimentar todos os truques, para ver se resultam.

Neste sentido, o espírito dos bebés de poucos meses é o de verdadeiros heróis épicos, dedicados obsessivamente a causas que os descentram de si (quando a fome não aperta, claro!) e que levam a que se possa dizer: “ele não sabia que era impossível, por isso é que o fez”.

O filme Babies (2010), de Thomas Balmès, onde seguimos o dia-a-dia de quatro bebés, nascidos em partes distintas do globo (Namíbia, EUA, Mongólia e Japão) ao longo do seu primeiro ano de vida (vide trailer abaixo) mostra com clareza como todos nascemos iguais. A cultura distingue-nos, os hábitos e os valores vão moldando a nossa natureza, ao mesmo tempo que as diferentes características da personalidade de cada um vão marcando a identidade própria que nos torna únicos. Mas o amor incondicional, a curiosidade incansável, a dedicação apaixonada a cada nova actividade são características que nos são comuns na origem e que marcam o nosso despertar para o mundo. Se as mantivéssemos intactas, é provável que não aguentássemos 80 anos de vida: tanta emoção por segundo seria insustentável para o coração de qualquer mortal! Mas é bom deixarmo-nos inspirar por estes pequenos mestres, sobretudo perante este novo ano lectivo que começa e que traz consigo desafios especialmente exigentes para cada um de nós. Precisamos realmente de um espírito capaz de se propor o impossível, de traçar metas acima do razoável e de se dedicar abnegadamente às tarefas mais cansativas. No contexto actual da sociedade, bem como nos mais diversos aspectos da nossa vida pessoal, é importante sabermos compensar a “sensatez”, o “realismo” e a “ponderação” da nossa sabedoria adulta com a utopia quixotesca de quem descobre todos os dias, novamente, a excitação de estar vivo.

Joana Rigato
01.09.2011







Comentários
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2011-09-03 18:26:43
Sónia Monteiro, Benguela
Muito bom! Gostei bastante do texto, sobretudo, de perceber que, às vezes, tantas respostas passam despercebidas a um olhar apressado e desatento.
Obrigada pela dica do filme!

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