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A Páscoa significa sempre um tempo de passagem, de caminho que precisa de ser percorrido. Por outras palavras: é um tempo que nos pede para fazermos caminho.
Na verdade, a Páscoa, celebrada pelos cristãos como a morte e Ressurreição de Jesus Cristo, encontra noutras culturas uma espécie de espelho que, sem acreditarem na Ressurreição ou em Cristo, festejam igualmente uma Passagem, por exemplo, o Pessach judaico que assinala a fuga dos judeus do Egipto para a Terra Santa ou o Holi na Índia (festival das cores) que celebra Krishna e a chegada da Primavera.
O caminho pascal é percepcionado e vivido por cristãos de todo o mundo como o tempo maior do ano litúrgico. E marca, inevitavelmente, à volta do mundo, o calendário de crentes e não-crentes.
Como sente a Páscoa um português? Em Espanha, é celebrada da mesma forma? E um ortodoxo? Como a festeja?
Tentando evitar os registos mais ou menos “folclóricos” das tradições pascais que nos chegam todos os anos pelas reportagens dos jornais, quisemos saber como era entendida a Páscoa por “crentes, descrentes e assim-assim” noutros países. Para isso, fizemos 3 perguntas simples, do Brasil, a Timor, passando pela Bulgária, China e Inglaterra. Os resultados, são aqui partilhados.
As 3 Perguntas:
1 - O que entendes como Páscoa?
2 - Que significado tem para ti?
3 - Como a celebras? Caso não celebres, que ritos ou tradições pascais conheces?
As respostas:
Nuno Rodrigues, Português, Animista, Compositor, Faro
1 - A Páscoa é um conjunto de rituais que pretendem lembrar a morte de Jesus e celebrar a Sua ressurreição, como prova da salvação do Homem, de um ponto de vista religioso e simbólico.
2 - A Páscoa tem um significado inspirador, no sentido em que me dá um estímulo para me confrontar com os aspectos menos positivos da minha personalidade e, ao mesmo tempo, potencia a consciência da possibilidade de me transcender a mim próprio. O paralelo com a morte de Jesus e a Sua ressurreição é, para mim, como alguém que se entrega a um bem maior (uma consciência mais alargada e profunda de si e dos outros), de forma totalmente corajosa , e com a certeza de que com essa coragem e entrega é de facto possível ser melhor, de acordo com um potencial natural de grande valor e benfazejo que acredito que cada pessoa tem. Além disso, considero também a Páscoa no que penso ter sido o seu significado a montante, nomeadamente o paralelo com os próprios ciclos da Natureza, isto é, a transição do Inverno (morte) para a Primavera (renascimento).
3 - No meu caso, para além da reflexão e confronto pessoal, não a celebro de forma ritualizada, mas sim através de um encontro com a família, mais ou menos alargada, em meio informal, quase sempre fora do ambiente urbano. No que se refere a rituais pascais, conheço a existência de procissões, da Via Sacra e reconstituições do julgamento de Jesus, da Sua Morte e Ressurreição.
Marién Martinez, Espanhola, Ateia, Estudante da Universidade Sénior, Palma de Maiorca
1 – Na religião católica, é a celebração da Ressurreição de Jesus Cristo, depois da Paixão e Morte de Sexta-feira Santa.
2 – Faz-me pena ver que os que se dizem católicos, vivam a Páscoa apenas como uma desculpa para ir de férias. A maior parte das vezes não dão qualquer testemunho da Fé que dizem ter.
3 – Não celebro. É um Domingo como outro qualquer.
Kevin Jennings, Inglês, Católico, Construtor civil, Londres
1 - A Ressurreição de Jesus Cristo: o Filho de Deus.
2 - A Páscoa relembra-me que todos nós temos uma vida pela qual esperar “no mundo que há-de vir” e encoraja-me a renovar a minha intenção de ser sempre uma pessoa melhor.
3 - O mais importante é participar na Eucaristia e alegrar-me com a verdadeira celebração – a Páscoa sem uma missa especial não seria a mesma coisa para mim! Depois, festejo comendo chocolate e, sempre que possível, procuro estar com aqueles que mais amo, porque a Páscoa é muito especial e é por isso o tempo para estar ainda mais próximo de quem se ama.
Lina Stoynova, Búlgara, Ortodoxa, Tradutora, Sófia
1 – A preparação para a festa começa uma semana antes da Páscoa, na Semana Santa. A Páscoa é celebrada durante três dias. À meia-noite de sábado é realizado o culto solene - o padre anuncia a Ressurreição com as palavras: "Cristo ressuscitou". No anúncio da Ressurreição, o sacerdote passa o fogo a partir do qual todos os presentes acendem as suas velas. Para os ortodoxos, isto é a lembrança do “Fogo Sagrado” que desce no túmulo de Cristo pelo Sábado Santo.
A forma para determinar a Páscoa na Igreja Ocidental e Oriental é a mesma: o primeiro Domingo de lua cheia após o equinócio vernal. A diferença é que os cristãos ortodoxos continuam a usar o calendário Juliano, que tem uma diferença de 13 dias para o Gregoriano.
2 – Para mim, é das maiores celebrações da Igreja. O Renascimento de tudo!
3 - Na Bulgária, a tradição diz para pintar os ovos na Quinta-feira Santa e no Sábado Santo - tantos ovos quantos os membros da família. O primeiro é sempre manchado de vermelho pela mulher mais velha. Enquanto ele ainda está quente, a mulher pinta o sinal da cruz na testa dos filhos e depois toda a família troca o sinal da benção entre si. Os ovos são decorados no fim, pelas mulheres jovens na casa. Sempre que tenho ovos pintados, separo alguns numa cesta para oferecer a quem chega.
O ovo é uma dádiva a cada convidado que entra pela porta de casa. Há também o ritual dos pães que são meio doces e redondos com um ovo vermelho e um entrançado no meio - como aquele bolo em Portugal. Na Sexta-feira Santa não se prepara nada, pois é dia de purificação espiritual.
Jorge Malveiro, Português, Católico não-praticante, Psicólogo, Aljezur
1 – É a celebração de um ritual em que os cristãos glorificam a Ressurreição de Jesus Cristo. Se a Páscoa cristã ritualiza a "Passagem" de Cristo da morte para a vida, também a Páscoa Judaica enaltece nesta época o êxodo dos israelitas do Egipto e a sua “passagem” da escravidão para a liberdade. Aliás, ambos eventos coincidem neste período do ano com os rituais pagãos que celebravam a “passagem” do Inverno para a Primavera.
2 - Provavelmente por ter sido educado numa família Cristã e por ser um homem dedicado à ciência do comportamento, esta época tem um duplo sentido para mim: o respeito pelo simbolismo religioso da fé cristã mas também a reflexão pessoal sobre a intricada complexidade da natureza do Homem.
3 - Celebro a Páscoa como um tempo de renovação dos laços familiares, cujo ponto alto se repete anualmente num longo e generoso almoço do Domingo de Páscoa passado em família alargada, em que não se dispensa o borrego assado no forno e os folares algarvios, entre outras iguarias tradicionais.
Luiz Roberto Modolo, Brasileiro, Evangélico, Comerciante, São Paulo
1 - A Páscoa é uma festa católica, é a Ressurreição de Jesus Cristo.
2 - Quando criança e jovem na casa de meus pais - até porque era coroinha (acólito) da igreja de S. Benedito - a religiosidade era mais presente, desde a quinta feira santa, onde tinha a cerimónia do Lava-pés, onde meu irmão e eu éramos sempre apóstolos (aliás eu sempre era o Judas), passando pela sexta feira, quando ouvíamos o sermão das sete palavras. No sábado da Aleluia, queimávamos o judas e, no domingo de Páscoa, havia a missa e todas as comemorações da Igreja. Terminávamos o jejum da carne, porque em toda a Quaresma não se comia carne vermelha. Enfim, acho que era mais fervoroso e refletido em orações. Até o silêncio parecia existir com mais profundidade. Até hoje, na sexta feira Santa, procuro ouvir os cantos dos pardais e parece que isso permanece: eles não cantam nesse dia em homenagem à Morte de Jesus.
3 – Vou com a família à missa no Domingo. Celebramos com festa na mesa, idêntico ao Natal: reunião em família, comida. Mas acho que deveríamos viver com mais orações. Deveria haver mais pensamento em Deus.
Jessica Zhang, Chinesa, Não crente, Terapeuta de acupunctura, a viver em Lisboa
Na China não há Páscoa e a maioria dos chineses não sabe o que é. Para nós, é um dia igual a qualquer outro. Á excepção do facto de as crianças, por tradição, comerem ovos de chocolate, mas ninguém faz a mínima ideia porquê.
Paulo Duarte, sj (Jesuíta), Português, Estudante de Teologia, a viver em Madrid
1 - A Páscoa, na tradição cristã, é a celebração da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo. A palavra tem origem hebraica e significa passagem. Os judeus também celebram a Páscoa, que corresponde à saída, passagem do povo hebreu do Egipto (terra onde eram escravos) para a Terra Prometida. Pode-se dizer que na Páscoa celebra-se a passagem da morte para a Vida.
2 - Além de passagem, significa fé. Para mim, a Páscoa é o momento em que tudo se integra, tudo ganha um novo sentido. Jesus Cristo não foi um super-homem, mas é o próprio Deus encarnado, que vive em plenitude tudo o que é humano, até mesmo a morte. E na noite de Páscoa celebramos que a morte não é um fim, mas uma passagem para uma nova Vida. Por vezes acabo por celebrar a Páscoa noutros dias. Por vivermos em comunidade - Igreja - há dias marcados para a celebração. Mas a ressurreição permite que no meu dia-a-dia (bem, de todo o ser humano) se possa perceber as várias mortes e ressurreições que vão acontecendo na minha (nossa) vida. Não é em vão que passamos 40 dias de Quaresma... É mesmo o caminhar para poder, aos poucos, passar por uma conversão de coração e nos aproximarmos mais de Deus, participando na Sua Vida.
3 - Bem, em sentido geral, nos últimos anos, tenho vivido as celebrações próprias do Tríduo Pascal. No sentido mais particular, tem sido de forma variada: desde celebrar em ambiente paroquial, até estar em retiro, ou até celebrar com alunos de Colégios com actividades preparadas para além das celebrações próprias do Tríduo.
Rosalina Dias, Timorense, Católica, Dili
1 - Páscoa é passagem da morte para a Vida, da escuridão para a Luz, deixar o mal e viver a fazer o bem, deixar o pecado para viver na graça de Deus.
É a festa em que a Igreja e toda a humanidade cristã celebra a Ressurreição de Jesus Cristo - para dar uma vida nova, para levar a humanidade de volta para o Pai.
2 - Além de tudo o que eu descrevi na primeira resposta, para mim tem um significado mais pessoal que é procura e tentar enterrar tudo aquilo que não me leva a Deus, que me tira a paz de alma (como o egoísmo, a inveja, os ressentimentos, a raiva, o ciúme, o ódio, a vaidade), que me afasta de Deus, para poder ressuscitar com Cristo, Vivo, Triunfante.
3 - Em cada ano, quando começa o tempo de preparação para a Páscoa, o tempo de Quaresma, começo a ver quais são os meus comportamentos, atitudes que tenho de enterrar para poder celebrar a Páscoa com o coração limpo e a alma limpa. Para mim Páscoa é a Festa mais importante dos cristãos e por isso procuro sempre celebrar como uma alegria interior.
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“Esta é a hora de quebrares as tuas correntes,
O tempo do desabrochar das almas.”
Katherine Lee Bates, 1859 – 1929 Compositora e educadora americana, sobre a Páscoa. |
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Suzanne Rodrigues
15.04.2011
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