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Há cerca de um ano atrás escrevi uma crónica sobre a minha primeira chegada a Macau e como esta cidade é ainda uma importante porta de entrada na China. Agora Macau é a minha “base de operações” como gosto de chamar-lhe, isto porque é aqui que está o escritório da Casa Ricci* onde trabalho quando não estou fora. Já vos falei um pouco das viagens que tenho feito ao serviço desta instituição, das leprosarias, das casas de crianças, das populações pobres, e das pessoas com quem estamos na China. Desta vez queria contar um pouco a história da pessoa que fez com que tudo isto seja possível.
O P. Luís Ruiz veio para a China ainda como seminarista, depois foi expulso juntamente com todos os estrangeiros e, no início dos anos 50 chegou a Macau. Nessa altura havia muitas pessoas que fugiam do continente e acabavam refugiadas em Macau depois de terem perdido tudo. O P. Ruiz ajudava como podia, saindo de noite na sua motoreta para distribuir comida e cobertores pelos inúmeros sem abrigo. Mais tarde, no início dos anos 80, deixou de haver refugiados em Macau e a situação melhorou mas, por acaso, chegou aos ouvidos do Pe. Ruiz notícia de que havia uma “ilha de leprosos” no sul da China. Intrigado com esta ideia que mais parece tirada de um filme (de aventuras ou terror conforme o ponto de vista) decidiu explorar e arranjou maneira de lá chegar num barquinho a motor. Não era mentira: na pequena ilha viviam centenas de pessoas com lepra, praticamente sem casa, sem água limpa ou electricidade, sem roupa e apenas com um mínimo de comida que conseguiam cultivar. Não quero discutir aqui como é que, em pleno século vinte, estas pessoas lá foram parar, mas a verdade é que a lepra mete medo a muita gente…
Foi naquele dia que a Casa Ricci começou a nascer no seu coração. Quando voltou a Macau começou a escrever cartas a todos os amigos de que se lembrou. Aos poucos começaram a chegar ajudas vindas de toda a parte, e a fama do Padre estrangeiro que ajuda leprosos começou a espalhar-se. De várias “aldeias de leprosos” começaram a chegar pedidos de apoio, e o P. Ruiz fez tudo o que pode para ajudar. Viajou sem parar, escreveu centenas de cartas (ainda hoje não se fia do email), fez acordos com o governo, desafiou mentalidades e preconceitos, convidou irmãs religiosas para a missão, e isto usando apenas o seu pobre “chinoespanhocantonês”, e sobretudo muita paciência e caridade.
Hoje tem 98 anos celebrados há uns meses numa das novas casas para crianças com sida. Continua a escrever cartas e tenta estar sempre a par do que se passa. Claro, a Casa Ricci é hoje dirigida por um outro jesuíta que é responsável por mim e me dá as missões a cada mês. O trabalho nos escritórios, que era antes o pequeno gabinete onde recebia os refugiados, é agora levado a cabo por 10 pessoas com funções diferentes, mas todas muito inspiradas pela alegria, simplicidade e fé que ainda hoje o P. Ruiz espalha por toda a parte. Eu sou um deles e, apesar de estar só de passagem, tenho o privilégio de viver na mesma comunidade do P. Ruiz e às vezes até de ver com ele uma jogatana de futebol europeu às 3 ou 4 da manhã!
Mas o P. Ruiz, que muitos consideram um santo, é também um homem de carne e osso. Às vezes é teimoso e quer as coisas à sua maneira. É distraído, espirra com estrondo no meio das refeições e até das orações, é autoritário (alguns diriam “mandão”), às vezes fala sem parar, outras vezes não abre a boca, enfim é um velhinho que viveu muito e muito a sério. E sobretudo tudo é um homem que ama muito e a muitos. O seu lema é: “Nada mais feliz do que fazer os outros felizes”, e isso explica os milhares de amigos, literalmente milhares de pessoas dos quatro cantos de mundo, que continuam a ajudar com donativos, visitas, cartas, voluntariado e claro muita oração por ele e pelos chineses a quem tanto quer bem.
* O nome Ricci foi escolhido em honra do grande missionário jesuíta Mateo Ricci que morreu em Pequim em 1610. Para quem tiver interesse em saber mais histórias e testemunhos deixo aqui a indicação do website (http://casaricci.org/) da Casa Ricci e também do seu Blog pelo qual sou responsável. Inglês: http://www.casaricci.blogspot.com/ ou Espanhol: http://www.blogdecasaricci.blogspot.com/ |
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Francisco Machado
15.04.2011
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2011-04-18 00:15:57 Um Santo de carne e osso Custódia Da Costa Santos, Viseu Para quem não acredita em Deus, para quem quer provas, que provas mais evidentes, com testemunhos destes?
Louvado sejas meu Senhor, pela Tua força nos mais débeis da sociedade. Mais comentários |
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