- Sim... Àquelas árvores... Sabes, eu gosto muito de árvores.
- Eu também gosto muito de plantas.
- Quantos anos tens?
- Tenho 11.
- E como te chamas?
- Rejoice.
- Rejoice?
(responde-me com um sorriso rasgado, dizendo que sim com a cabeça.)
- E sabes o que quer dizer o teu nome?
- Sim! Álégria!!
- Bonito nome.
- Obrigado. Eu não sei tirar fotografia.
- Eu ensino-te. Tiramos uma aos dois.
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Essa fotografia foi tirada há um ano. Desde então sinto que algumas coisas mudaram.
Antes de mais mudei eu e o que era África para mim. Acho que agora vejo as mesmas coisas e encontro nelas as mesmas características, mas com um olhar mais real, mais duro, mais sofrido e mais próximo.
A verdade é que é difícil, para não dizer, de forma pessimista, impossível (até porque não acredito nisso), encontrar soluções para África e os seus problemas. E mesmo que se tenham algumas soluções geniais, aplicá-las com sucesso está quase no campo da acção miraculosa e divina, sobretudo se falarmos a longo prazo.
Não estou a ser pessimista. Algumas coisas estão objectivamente pior. Lanço aqui alguns números assustadores.
Quando aqui cheguei, a esperança média de vida do povo moçambicano andava pelos 37,4 anos. Os dados para 2010 indicam que baixou para os 35,9 anos. Há, entre os cerca de 19 milhões de moçambicanos, 1,6 milhões de crianças órfãs. Destas, 347 mil perderam os pais por causa da sida. 355 adultos e 85 crianças são infectados diariamente pelo vírus da sida. A taxa de transmissão vertical (de mãe para filhos durante a gravidez, o parto, ou a amamentação) anda na ordem dos 30 ou 40%. A transmissão vertical é facilmente evitável e em Portugal anda abaixo dos 2%, o que é um valor considerado alto na Europa. Há em Moçambique cerca de 160 mil novas infecções por ano, 370 mil pessoas necessitam de tratamentos regulares com anti-retrovirais, 92 mil mortes por ano são causadas pela chamada doença do século.
Mas nem só o HIV-Sida causa mossa. Estima-se que mais de 40% de todos os casos de doentes ambulatórios e 60% dos casos de pediatria nos hospitais são resultado da malária. Também se estima que a malária é responsável por perto de 30% de todos os óbitos hospitalares.
Não falo da tuberculose, outra realidade bem mortífera, porque não tenho números. Oiço apenas a sua tosse.
A esperança não é muita... Sente-se isso demasiadas vezes no ar.
Reencontrei a Rejoice de novo neste ano. Cresceu, tem agora 12 anos, já usa capulana como saia e parece uma mulherzinha. Já não é a Rejoice que traduzia o seu nome de sorriso inocente escancarado na face. Está mais séria, mais desconfiada, provavelmente mais consciente do mundo que a rodeia. Espero que a sua vida não tenha deixado de fazer jus ao seu nome. Desta vez não quis tirar fotografia.
Inevitavelmente surge a questão: como viver neste drama com um mínimo de esperança? Como não desesperar?
Tudo pode acontecer nesta terra, mas nada pode apagar uma característica fundamental de Moçambique: é lugar de encontro. E às vezes surrealmente, mas sempre inesperadamente, têm-se cruzado na minha vida pessoas incríveis que me chamam a atenção para coisas que não estão à vista dos primeiros olhares, que só alguns privilegiados fazem por ter acesso.
Foram algumas dessas pessoas que me desafiaram a ir conhecer algo que marca definitivamente esta minha estadia em Moçambique: a Casa da Alegria.
A Casa da Alegria é um paradoxo. É uma obra das Missionárias da Caridade, a congregação fundada pela Madre Teresa de Calcutá. Aí vão parar os mais miseráveis dos miseráveis, os mais desgraçados dos desgraçados, todos aqueles que não têm a mínima réstia de esperança. Foram expulsos, abandonados, violadas, empurrados de algum sítio para fora. Não têm nada para além de corpos frágeis, sub-nutridos, cheios de doenças e uma vida de sofrimento.
Ali encontram umas mulheres fantásticas que lhes dão todo o carinho, os alimentam, os tratam, os amam como se cada um fosse o seu único filho. Vêm de todos os lados, do primeiro mês de vida até à velhice, às dezenas largas.
As idas de Sexta à Casa da Alegria são revigorantes. Não são fáceis, bem pelo contrário, mas ajudam-me a relativizar os meus problemitas e a estar centrado no essencial. E sobretudo, fazem-me perceber que mesmo nos casos mais desesperados a vida é como ali se vive: uma grande alegria. E isso, mais do que um estado de espírito, como está escrito nas ruas de Maputo, é um estado do Espírito... Santo, claro!
2011-09-20 15:26:58 contacto da casa da alegria mafalda, lisboa Olá!estava mesmo mesmo interessada em fazer voluntariado na Casa da Alegria,como posso contactar?
obrigada e bjs
2011-02-06 18:49:56 Informação S. Bolman, Irlanda Bem Hajas pelo trabalho na Casa da Alegria.
Nascí no Maputo e gostaria de fazer voluntariado na Casa da Alegria. Envias-me por favor o contacto da Casa da Alegria ?
Muito Obrigada.
2011-02-04 18:34:00 Susana Réfega, Oeiras Francisco,
Sempre bom ouvir-te. Acredito que Africa é bem mais do que os numeros e as estatisticas que nos submergem...Mas como tu dizes isso dava uma grande conversa.
E como o mundo é pequeno, ontem numa conferencia aqui em Lx uma rapariga pegou no microfone para dizer que estava recem-regressada de Mocambique. Nome: Maria da Paz. Hoje encontro o mesmo rosto na Casa da Alegria.
Abraço,
Susana
2011-01-10 13:03:43 Solicitudo rei socialis Nuno, Braga Estive em S. Tomé fazendo parte dos "Leigos para o desenvolvimento" (1995). E os primeiros três meses foram para tentar perceber o que se passava e como responder. Não consegui!
Só ao ler a encíclica de João Paulo II ("Solicitudo rei socialis") se começou a "abrir a porta"... Ali o antigo Papa chama a atenção para o enorme egoísmo do mundo ocidental (afinal, a crise não são só os bancos e os seus produtos tóxicos...). E abre muitas portas de esperança (aliás na Cimeira Europa/África em Lisboa, foram mostrados dados encorajadores sobre muitos países africanos).
Há muito a fazer e há um enorme potencial humano.
2011-01-03 18:07:09 As pessoas passam... Francisco Campos, sj, Maputo Mas algo fica, Zé Maria!
E a vossa presença aqui ainda hoje é lembrada com saudades... Já vários me falaram (entusiasticamente) da família toda! Confesso é que já não me lembro se eram presidentes, directores, ou machambeiros. Mas independentemente disso eram, de certeza, importantes.
Saudades, daqui do calor!
Francisco, sj
2011-01-03 18:02:42 As coincidências! Francisco Campos, sj, Maputo Elisa!
Eu, para te dizer a verdade já desconfiava desse teu segredo. É que as pessoas que por ali passam são diferentes de todas as outras.
Tenho-me cruzado com muita gente que conhece aquela casa. E falam sempre dela com um aperto no coração, mas também sempre de sorriso alegre nos lábios.
Beijinho!
PS- Quando é que te convences que tens de mudar de oceano outra vez? Anda para este lado!
2011-01-03 10:35:39 ... o tempo o dirá ... Zé Maria, Carcavelos Francisco, pé-ante-pé vai-se fazendo o "Grande" ... é também isso que vou absorvendo do teu próprio (sempre) "crescimento" ... vais-te tornando cada vez "maior" na Graça do Altíssimo para AMDG...e quando assim é, tudo à volta vai "germinar" de forma diferente ..e assim tenho esperança que, Moçambique, se vai tornando também "diferente". Num "santuário" que me deste a conhecer, ouvi um irmão dizer "vale a pena apostar em cada pessoa que por aqui passa, pois nunca se sabe quantos daqui se vão tornar futuros lideres (políticos, sociais, espirituais, etc) ...e se tocados pelo Espírito, decerto farão diferença". É essa a minha esperança de renovação, pelo que cada um (ao seu jeito) que por aí passou e deixou .... quando, não sei ... o tempo o dirá. Obrigado pelos teus testemunhos vividos. Abraço
2011-01-02 21:46:56 também eu elisa, mundo olá.
conto-te, Francisco, um segredo.
também eu andei por lá, pela casa da Alegria. Aos domingos de manhã.
Levava-me um moçambicano amigo, moço muito jovem, inteligente e dedicado, que entre a faculdade, a namorada, os amigos, os estudos e umas cervejas arranjava tempo para irmos ali SÓ brincar com os miúdos. E a essa casa devo a alegria de um AMIG excelente feito em moçambique, a alegria de me sentir útil, de me sentir gente e de, aos domingos, ter menos problemitas e mais alegrias.
beijos e muitas saudades.
2011-01-01 18:14:47 Nem imaginas, Patrícia! Francisco Campos, sj, Maputo Muito obrigado, Patrícia! Feliz 2011!
Não é o país que me desilude, mas mais a minha incapacidade de ter respostas à altura dos seus problemas. Mas isso dava uma grande conversa!
Entretanto, agradeço-te muito pelos teus Beijos de Mulata (http://beijo-de-mulata.blogspot.com/) que vou seguindo com atenção e que me estimulam sempre à criatividade divertida nestas bandas.
Tenho muito que aprender contigo!
Grande beijinho e cá te esperamos, também!
2011-01-01 17:12:25 Feliz 2011! Errata... Patricia Lopes, Lisboa Obviamente que o trabalho do Francisco é extraordinário e não estraordinário... Lamentamos a gralha ;)
2011-01-01 17:09:50 Feliz 2011! Patrícia Lopes, Lisboa Gostei muito, como sempre, Francisco. Nota-se que o país em muitos aspectos te desilude, mas tenho a certeza de que isso é porque não dás ao trabalho estraordinário que fazes o valor que merece. Que seria diariamente das pessoas na rua, dos alunos, dos teus irmãos em casa, de toda a gente que se cruza contigo se não estivesses por lá?
Beijinhos e boas caminhadas! E um feliz 2011. Cá te esperamos!