Os National são uma banda de Nova Iorque constituída por dois pares de irmãos e um vocalista com voz grave. Tudo o que vou dizer não tem a mínima pretensão de ser imparcial: os National são das melhores bandas que para aí andam e Boxer, o último álbum, é inacreditável. Quem tem ouvidos, que ouça:
Assim como há coisas que têm de se dizer de certa maneira, acredito que há músicas que têm de se dançar, e dançar com certos sapatos. Aqui, além de a música dar vinte a zero a qualquer música melosa sobre o amor, eles acertam nos sapatos (os encarnados, claro). Frivolidades? Não. Os National encarnam uma ideia fundamental de que muita gente se esqueceu: sério não é chato. Ou melhor ainda: para se ser sério à séria, é preciso muita pinta. Um chato dificilmente consegue chegar a ser sério e, mais, ninguém leva um chato muito a sério.
Os National têm coisas a dizer ao mundo, coisas sérias: sobre o trabalho e sobre os escritórios, e sobre política e sobre o amor. Sobre o que preocupa realmente, quando nos preocupamos com coisas: o que fazer com a vida, no mundo. O sério, e o que “me tira do sério”, é que a cada canção mostram (não dissertam sobre, nem oferecem soluções para – isso seria chato…) uma vida que podia ser a minha.
E, por isso, pedem-me que esteja disposta a olhar e ver a minha vida e o nosso mundo. Pedem honestidade. Honestidade de pegar nos meus sapatos de salto encarnados e ir abrir pistas de dança. Porque estamos a falar de coisas sérias.
Ainda mal lhes apanhámos o jeito, e as músicas já nos encostaram à parede. A bateria – céus, a bateria! – entra muitas vezes a matar, e a partir daí já não temos hipótese. É segurar-nos e deixar-nos que nos mostrem como somos. Boxer é um álbum que não brinca. Sério, despretensioso e cheio de estilo. Todas as músicas são bem feitas, e a prova disso é que tenho de falar de mim para falar delas. São irónicas como têm de ser. Como os sapatos.