 |  |
 |
|
|
MORRESTE-ME José Luís Peixoto Livros QUETZAL Maio de 2009 ISBN: 9789725648025
“Passaste para a morte. Fico sozinho e não podes voltar para me proteger.”
Um monólogo, em tom de carta, onde o filho revela o modo como viu os dias que viveu com o pai e os recorda com nostalgia e alguma revolta. Uma relação onde se compreende uma cumplicidade espantosa e onde cada linha, extremamente bem escrita, pretende que esta se eternize. O modo como a relação é descrita enfatiza a efemeridade de cada momento e de cada orientação que lhe fora dada com uma precisão incrível nas descrições que elabora. Relembra o seu crescimento numa vila onde todos o conheciam e onde todos o esqueceram. Há injustiça nisto tudo. Compreende-o ao ver que a luz que resta são apenas memórias e a mãe que passa a ser referida apenas como “a tua viúva”.
A infância, as rotinas. Os mesmos sítios e as mesmas pessoas e situações. Era tanta a cumplicidade! Afinal, contava-lhe tudo na certeza de nunca o perder. Agora, onde havia tudo isto, não há nada. Fabrica a promessa de percorrer os mesmos caminhos. Pela simples razão de que o haviam feito juntos inúmeras vezes. A mesma mobília, a mesma lareira onde ardiam conversas agora transformadas em cinzas. A mesma casa, fria, pela ausência de segurança que o pai lhe conferia.
“Quantas das coisas morreram contigo?” – Procura-o nas pequenas coisas que partilharam. Nas coisas que faziam juntos. Despede-se agora num monólogo agitado onde protege o mundo que foi deles, e onde agora somos convocados a entrar. Um tema que se torna leve pela suavidade que é conferida às palavras e onde se crê na eternidade desta relação. Um filho que acredita que as folhas do jardim caem das árvores para se despedir. Escreve, na certeza de que o guardará. Na certeza de que não o pode ouvir nem estender-lhe a mão. Mas que ainda assim, há coisas que não morreram com ele. |
|
Madalena Boissel
01.03.2010
|
|
|
|
|
|
|
|
|
 | |