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Edição 36 | 01 Setembro 2010   
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Gran Torino | O Grande Silêncio
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Gran Torino
de Clint Eastwood
com Clint Eastwood, Geraldine Hughes, John Carroll Lynch
Drama, Thriller, M/12, EUA, 2008, 116 min.
Site oficial, Trailer

Quando oiço dizer que “a arte é a imitação da vida” vem-me à memória precisamente o contrário, dito por Oscar Wilde: “a vida imita mais a arte do que a arte imita a vida”. Acrescentaria que a vida, pelo menos, “tenta” imitar a arte (ou devia); a verdadeira Arte.

Quando se diz que não vale a pena teorizar ao falar de um filme porque é a “vida” que lá está e é “real”, não me lembraria mais das palavras acertadas de Wilde. Se a “arte é a vida” para que serve a arte, se a vida, já a vivemos? É claro que a Arte não é a vida. Nem deve ser, caso contrário estaríamos a ser redundantes. O problema de algum cinema é precisamente esse, ser demasiado “vida”. De “vida”, basta-nos a nossa. Precisamos é de Redenção, se calhar. No meu entender, estão aí os grandes filmes. A poderosa máquina cinematográfica vomita-nos todos os dias muitos que são “vida”, enfim, dada a massificação a que chegámos. Respeitando, claro, todo o bom entretenimento, que terá a sua função e lugar. Talvez a melhor arte será a que junta o “entretenimento” à Redenção, ou como diria Horácio, o Dulce ao utile.

Mas o que tem isto a ver com o filme de Eastwood? A Arte é muito mais do que tudo isto e não valerá a pena dissertar mais sobre um tema tão vasto, no entanto estas considerações podem ter a ver um pouco com a história de Walt (Clint Eastwood).

O filme não é “vida”, no sentido em que nem sempre o homem muda consoante as circunstâncias. Aqui, Walt vive uma mudança interior motivada pela amizade de um rapaz e de uma comunidade. Ao mesmo tempo aprende com as reacções que tem com o mal. Ao início, respondia ao mal com o mal, mostrando o seu rugido de veterano da vida, mas cedo vê que não é a resposta mais adequada e que, inclusivamente, pode comprometer o destino dos outros.

Este filme não é “vida” também pelo final, que roça o irreal, sendo no entanto uma bela metáfora da resposta ao mal e a prova maior de amor. Como actuaremos com o Mal a nós feito? Responderemos da mesma moeda, porque é “justo”? Ou, se agirmos assim, qual boomerang, não regressará a nós com o mesmo embate? Se bem olharmos à nossa volta, nem sempre as coisas acabam como em Gran Torino. Será possível o mundo dar-nos uma justiça perfeita? Não podendo, onde está a Redenção? E o que fazer? Quem será o Árbitro de tudo isto? A resposta pode estar na Páscoa que agora vivemos: quem passou pelo mesmo e nos compreende. Quem é maior do que qualquer Mal e conhece a Justiça, com J grande.



O Grande Silêncio
de Philip Gröning
França/Suíça/Alemanha, 2005, documentário,
Site oficial, Trailer

A revelação do aqui e agora 
 
O stress dos afazeres, o correr para o autocarro, as aulas, os trabalhos de casa, as conversas com os amigos, o ‘excesso’ dos média leva-nos, por vezes, a considerar impossível prestar atenção aos movimentos internos do coração. O stress das múltiplas tarefas diárias retira-nos o gozo dos momentos de silêncio. Perdemos, com a sociedade de consumo, a sensibilidade e a tangibilidade do presente. 
 
Die große Stille (o Grande Silencio), de Philip Gröning, prepara-nos para a revelação do aqui e agora. Ao longo dos cerca de 2h45 minutos, partilhamos o nosso tempo (e o nosso silêncio) com os mestres do presente: os monges cartuxos da Grande Chartreuse, em Saint-Pierre-de-Chartreuse, Isère, nos Alpes franceses. Entramos, com eles, em contacto com o sentido da vida, os ruídos da natureza e do mundo que nos rodeia, e reencontramos o valor e o lugar das palavras na amizade. 
 
O quase total silêncio verbal leva-me a pensar nas palavras e na sua importância para a amizade. Se por um lado, nos ajudam a clarificar intenções e a concretizar desejos, por outro, formam juízos, criam barreiras, planos e objectivos de futuro. Num ápice desviam-nos do sabor do ‘aqui e agora’. 
 
A estrutura de Die große Stille (o Grande Silencio) convida-nos a repensar o sentido do presente e, com ele, o sentido da vida que se trivializa com o sucesso e a necessidade de controlo impostos pela nossa sociedade de consumo. A redescoberta do silêncio acorda-nos para o presente, para as suas revelações, para o sabor dos movimentos interiores do coração. Mais do que um documentário, Die große Stille é um redescobrir do... essencial. 


António Brito | Rui Nunes
01.02.2010

23   ÁGORA| UM CONTO DE NATAL
João Diogo Loureiro | António Brito 01.01.2010

22   A MELHOR JUVENTUDE | DESGRAÇA
João Pupo | Bruna Pereira 01.12.2009

21   DISTRITO 9 | O SOLISTA
Rui Nunes | António Martins 01.11.2009

20   SACANAS SEM LEI | UM TEMPO PARA CAVALOS BÊBEDOS
António Brito | Bruna Pereira 01.10.2009

19   UP - ALTAMENTE! | O LABIRINTO DO FAUNO
António Martins | João Diogo Loureiro 01.09.2009

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última actualização: 01.09.2010

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