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“O que é difícil de alcançar dá mais prazer do que o que é fácil” Vergílio Ferreira, Escrever
Frequentemente, quando um escritor lança um novo livro, aparecem entrevistas suas nos jornais, revistas ou outros meios, como forma de divulgar a sua obra mais recente. Nessas entrevistas, que são de extensão e, necessariamente, de profundidade diversa, os escritores são muitas vezes questionados sobre o seu trabalho em concreto, sobre o acto de escrever enquanto ofício, ou seja: rotinas, métodos, inspirações, referências literárias, medos, gostos, entre tantos outros aspectos. Se lermos essas entrevistas e as compararmos com escritos de carácter autobiográfico, como diários, cartas, autobiografias, é muito curioso constatar que “esforço”, “trabalho”, “dedicação” são palavras recorrentes e de que os escritores se servem frequentemente para falar sobre o seu trabalho, um trabalho que nos é também apresentado, muitas vezes, pelos próprios como solitário, exigente, angustiante e asfixiante. Mas também, um prazer, uma necessidade. Ora, isto quer dizer que, e ao contrário do que por vezes se pensa, escrever não é um acto de mera inspiração. A inspiração pode existir e até ser uma peça fulcral para alguns escritores, mas não é condição indispensável. Indispensável, e todos os escritores de uma maneira ou de outra revelam-no, é a persistência e a paciência, são as horas de escrita e de reescrita, o voltar para trás inúmeras vezes, o reformular sem conta, e isto porque, obviamente, os escritores têm um objectivo, querem atingir uma meta. O treino, o esforço árduo têm, portanto, uma finalidade específica que, em última análise, coincide com a finalidade do próprio acto de escrever e que pode ser tão díspar quanto: compreender-se melhor a si e aos outros, responder a um impulso, projectar-se no mundo, interferir nele, deixando uma marca perene.
Claro que o que até agora se evidenciou sobre os escritores vale para todo e qualquer artista, todo e qualquer trabalho, toda e qualquer tarefa, dirão. Sim, é verdade. A literatura, ou melhor, a forma como é criada, é apenas mais um exemplo do que já tantas outras pessoas disseram, é apenas mais um testemunho de como a vida deve ser vivida: com esforço, com dedicação, com suor, com angústia, até, em alguns momentos, porque dessa conjugação de atitudes resultará, seguramente, algo mais significativo, mais marcante, não só para nós, que o vivemos, que tivemos de superar obstáculos, vencer medos, ultrapassar dúvidas, como também para os que nos rodeiam, pois podem seguir o caminho que traçámos e dar-lhe até novos rumos.
No nosso tempo, o esforço e a dedicação parecem pouco valorizados, ou pelo menos, facilmente substituídos por outros valores mais imediatos e aparentemente mais ao alcance. É por isso importante mostrar que, também na literatura, aqueles cujas obras permanecem clássicas, porque intemporais, trabalharam muito, leram muito, escreveram e reescreveram muito. E fizeram-no sempre com um objectivo em mente, sempre no sentido de fazerem melhor, sempre na tentativa de imitar os que consideravam ser modelos e assim deixaram marca e assim deixaram caminhos abertos.
Nós também podemos deixar caminhos abertos para o futuro, basta colocar em tudo aquilo que fazemos tanta dedicação quanta a que os grandes escritores depositam no seu trabalho.
Os livros ensinam-nos muitas coisas… também os escritores, quando falam sobre o que é escrever. |
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