 Não devias empurrar fogo tão solitário sob os umbrais de uma morada nos carreiros que vão dar aos montes sairás ainda em súplica quando os incêndios ignorarem a ameaça da tua vassoura de giestas a sombra uma vez avulsa não retorna a mesma não despertes o que não podes calar
José Tolentino Mendonça* Longe não sabia, in A noite abre meus olhos [poesia reunida] Assírio & Alvim (2006) Quantas vezes não sinto, dentro de mim, uma força e um ímpeto inexplicável capaz de fazer frente, capaz de ultrapassar qualquer desafio, obstáculo ou inquietação? Quantas vezes não me deixo conduzir por este ímpeto? Que me faz querer acreditar que sou capaz de afastar sozinha o fogo que deflagra à minha frente? E quantas vezes não surge, de seguida, o medo, o sentimento de impotência, a solidão e a consciência da minha pequenez e fragilidade e de que afinal a minha vassoura não passa de uma simples e insignificante vassoura de giestas? Todavia, uma vez acordado este desejo, uma vez dada forma e espaço a este impulso, tomo consciência que não lhe posso adivinhar o percurso e de que sozinha não sou capaz, pois ultrapassa a medida das minhas forças. E, no entanto, não posso voltar atrás ou alhear-me, o regresso nunca será sem mancha ou dor e o alheamento é um caminho inevitável para a desistência. Os poemas de José Tolentino Mendonça convidam-nos a uma releitura, pois se no imediato aparecem-nos com grande simplicidade, logo de seguida, como é descrito no posfácio do livro A noite abre meus olhos, “Percebe-se então que há neles a exigência de um pensamento que vai ao encontro das permanentes interrogações do humano sobre o que, excedendo-o, lhe dá forma”. * Biografia na edição nº2 |