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Edição 36 | 01 Setembro 2010   
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UM POEMA
Os incêndios, de José Tolentino Mendonça
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Não devias empurrar fogo tão solitário
sob os umbrais de uma morada
nos carreiros que vão dar aos montes
sairás ainda em súplica
quando os incêndios ignorarem a ameaça
da tua vassoura de giestas

a sombra uma vez avulsa
não retorna a mesma

não despertes o que não podes calar


José Tolentino Mendonça*
Longe não sabia, in A noite abre meus olhos [poesia reunida]

Assírio & Alvim (2006)

Quantas vezes não sinto, dentro de mim, uma força e um ímpeto inexplicável capaz de fazer frente, capaz de ultrapassar qualquer desafio, obstáculo ou inquietação? Quantas vezes não me deixo conduzir por este ímpeto? Que me faz querer acreditar que sou capaz de afastar sozinha o fogo que deflagra à minha frente?
E quantas vezes não surge, de seguida, o medo, o sentimento de impotência, a solidão e a consciência da minha pequenez e fragilidade e de que afinal a minha vassoura não passa de uma simples e insignificante vassoura de giestas?
Todavia, uma vez acordado este desejo, uma vez dada forma e espaço a este impulso, tomo consciência que não lhe posso adivinhar o percurso e de que sozinha não sou capaz, pois ultrapassa a medida das minhas forças. E, no entanto, não posso voltar atrás ou alhear-me, o regresso nunca será sem mancha ou dor e o alheamento é um caminho inevitável para a desistência.

Os poemas de José Tolentino Mendonça convidam-nos a uma releitura, pois se no imediato aparecem-nos com grande simplicidade, logo de seguida, como é descrito no posfácio do livro A noite abre meus olhos, “Percebe-se então que há neles a exigência de um pensamento que vai ao encontro das permanentes interrogações do humano sobre o que, excedendo-o, lhe dá forma”.


* Biografia na edição nº2

Sónia Monteiro
01.02.2010

23   COM DIREITO A TIRAR PÃO, FERRO, A CARNE ESTÁ MAIS LONGE
António Ary 01.01.2010

22   ENTREGA, DE RAINER MARIA RILKE
Paulo Duarte 01.12.2009

21   OH AS CASAS AS CASAS AS CASAS, DE RUY BELO
Raquel Matos 01.11.2009

20   O MÁGICO, DE EUCANAÃ FERRAZ
António Ary 01.10.2009

19   É RARO, DE HÉLDER MACEDO
Sónia Monteiro 01.09.2009

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última actualização: 01.09.2010

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