De: Ron Howard Com: Russell Crowe, Ed Harris e Jennifer Connelly Biográfico/Drama, M/12, EUA, 2001, 135 min. Trailer
Devo confessá-lo já: Uma Mente Brilhante é um filme que exerce sobre mim um grande fascínio. Desde a primeira vez que o vi, com treze ou catorze anos, nunca deixei de achar notável esta representação cinematográfica da vida do matemático John Nash (embora a mesma não seja fiel à realidade em vários pontos). Curiosamente, fui encontrando, ao longo dos anos, diferentes formas de olhar para o filme. Permitam-me, por isso, que partilhe convosco a minha experiência.
O Uma Mente Brilhante dos meus 13-14 anos: com esta idade, ainda longe de imaginar que o futuro me reservava um curso universitário com uma forte componente matemática, surpreendia-me o elogio da inteligência. Desde muito pequeno que a noção de "génio bom", alguém com as faculdades intelectuais necessárias para inovar, construir ideias e revolucionar positivamente a nossa vida, esteve presente na minha consciência. Sempre admirei imensamente aqueles que querem "chegar mais longe", aqueles que usam as suas capacidades com o intuito de produzir algo que melhore a vida de todos, aqueles que usam a sua inteligência para os outros. Deixam-me orgulhoso de ser humano, e inspiram-me a tentar copiar o seu brilhante exemplo.
O Uma Mente Brilhante dos meus 18-19 anos: por esta altura, e tendo entrado recentemente no curso de Física, concentrava-me particularmente na beleza da Matemática. Há mais de 300 anos, Galileu Galilei intuiu no seu livro O Ensaiador (Il Saggiatore, no original) que "O livro do mundo está escrito em linguagem matemática". De facto, assim parece ser. Não deixa de ser curioso que a Matemática, uma disciplina que muitas vezes nos soa distante, abstracta e desligada da realidade, seja a pedra angular de praticamente toda a ciência moderna, e, a um nível ainda mais básico, um dos pilares mais importantes e estáveis da nossa sociedade. Olhemos à nossa volta: a Matemática está presente em praticamente tudo o que vemos e sentimos. Explica, racionaliza, prevê. E fá-lo recorrendo a um conjunto muito limitado de ideias e símbolos. Pessoalmente, sinto que esta simplicidade é tocante, e assombrosamente bela.
O Uma Mente Brilhante de hoje, com 24 anos: ao rever uma vez mais esta película no actual contexto temporal, olho (finalmente!) para a pessoa de John Nash, não como génio matemático, mas como ser humano, frágil, desamparado perante a destrutiva doença mental que o atinge e lhe rouba a felicidade. Marca-me especialmente a perda de contacto com a realidade. É, para mim, uma visão incompreensível e assustadora, e relembra-me a efemeridade e incerteza da vida. Sinto que não se pretende passar uma mensagem gélida e desesperante, mas um conselho muito básico: procurem não se desligarem da realidade, dos outros. John não teve escolha, mas a maioria de nós tem. Façamos por valorizar esse dom.
Talvez daqui a alguns anos, quando voltar a rever o filme, encontre algo mais em Uma Mente Brilhante. Talvez o leitor encontre uma película completamente diferente daquela que aqui descrevi. E é essa riqueza que torna o filme notável. |