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Edição 98 | 15 Maio 2013   
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Quando Kim Gordon, a parte feminina dos Sonic Youth, chega aos meus ouvidos, não é possível antever como ela se irá ouvir – a própria artista não o sabe e provavelmente nunca o saberá. Quase todas as semanas, convido-a a cantar no meu quarto, a entrar nos meus ouvidos até os dois conhecermos o espaço que ocupamos e assim podermos decidir o que fazer. Porque quero fazer-me acompanhar em alguns momentos, não me sentir sozinho e, em companhia, somente estar. É certo que existe um elevado grau de imponderabilidade no modo como ela canta as suas músicas no conjunto dos Sonic Youth, mas o importante é o convite que lhe faço para me acompanhar em muitos momentos. Muitas vezes imagino a aproximação de uma música e o cuidado da sua recomendação que me encaminha para um centro, para a atenção ao que tenho de ouvir e perceber, para decisões que tenho de tomar com apego ao que existe.

Nas últimas semanas, esta artista tem-me enviado uma panóplia de mensagens com sentidos muito diversos, e com eles, uma selecção de pequenos pensamentos do que pode acontecer. E o que normalmente acontece, é que cada música se acha engraçada, como se fossem pinturas ou alguém a falar comigo sobre alguma coisa que, de facto, quero ouvir. Não sei porquê, mas em "Jams Run Free", do álbum Rather Ripped de 2006, o sentido que encontro na música é encontrar o meu próprio sentido. Aqui e agora.

Se, por um lado, grande parte da música se desenrola em continuidade e em surdina no meu espaço, por outro, ela tem o seu momento culminante, uma espécie de erupção, na forma como a melodia me empurra para tudo, um movimento curto e intenso do que estou a viver e do que quero viver. A música não é mais do que o momento em que os dois decidimos acerca da forma como a vida me toma.

Porque é que gosto tanto dos Sonic Youth? Porque a música que eles criam fala muito do que a vida é: união e distorção. Como por esta altura já devia saber, tanto há uma coisa como a outra, e o que a vida me pede é que eu a saiba viver, independentemente das situações.

Eu sei-me perto dos outros ou afastado, sei ter gestos de aproximação ou não, sei que a própria vida, que me submete a uma radical transformação, ela própria, é o bem, mas também pode ser o mal. O que eu não posso ter é o sentido da catástrofe, desse mesmo mal criado sempre por nós, porque aí só posso dar testemunho da violência dura e irreparável que em nós pode bater, sobre nós abater e crescer, em que o mal é insuperável. O contrário quer-se, exige-se, o bem aumentado até o mal perceber que todos nós não o podemos recordar porque não existe memória para ele, como se fosse a pior sombra de ver.

António Madureira Rodrigues, sj
15.06.2012







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