Não: devagar Não: devagar. Devagar, porque não sei Onde quero ir. Há entre mim e os meus passos Uma divergência instintiva. Há entre quem sou e estou Uma diferença de verbo Que corresponde à realidade. Devagar... Sim, devagar... Quero pensar no que quer dizer Este devagar... Talvez o mundo exterior tenha pressa demais. Talvez a alma vulgar queira chegar mais cedo. Talvez a impressão dos momentos seja muito próxima... Talvez isso tudo... Mas o que me preocupa é esta palavra devagar... O que é que tem que ser devagar? Se calhar é o universo... A verdade manda Deus que se diga. Mas ouviu alguém isso a Deus? Álvaro de Campos (30-12 1934) In Poesia, Assírio & Alvim, ed. Teresa Rita Lopes, 2002 Corrida. Stress. Rotina e exigências. Quantas vezes nos esquecemos de parar ou nos lembramos de que não o podemos fazer? Quantas vezes não somos plenamente aquilo que queremos ser porque a caminho do nosso "eu" se metem atalhos que nos tiram do trilho? Quantos foram os passos dúbios, impelidos pela voracidade dos dias, por um mundo que não pára e que parece não se compadecer com a contemplação, com um viver sentido e na justa velocidade? Quantas vezes não somos, simplesmente, devagar?! Tenhamos a coragem de firmar o passo no chão, marcando o nosso próprio ritmo. A plenitude da existência não tem uma caixa de velocidades. Tem Deus; tem pessoas, momentos e partilhas. E reclama tempo.  “Álvaro de Campos nasceu em Tavira, no dia 15 de Outubro de 1890 (às 1.30 da tarde, diz-me o Ferreira Gomes; e é verdade, pois, feito o horóscopo para essa hora, está certo). Este, como sabe, é engenheiro naval (por Glasgow), mas agora está aqui em Lisboa em inactividade. (…) Álvaro de Campos é alto (1,75 m de altura, mais 2 cm do que eu), magro e um pouco tendente a curvar-se. Cara rapada todos — o Caeiro louro sem cor, olhos azuis; Reis de um vago moreno mate; Campos entre branco e moreno, tipo vagamente de judeu português, cabelo, porém, liso e normalmente apartado ao lado, monóculo. (…) Álvaro de Campos teve uma educação vulgar de liceu; depois foi mandado para a Escócia estudar engenharia, primeiro mecânica e depois naval. Numas férias fez a viagem ao Oriente de onde resultou o Opiário. Ensinou-lhe latim um tio beirão que era padre.” (Carta a Adolfo Casais Monteiro - 13 Jan. 1935, escrita por Fernando Pessoa) |