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Edição 98 | 15 Maio 2013   
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Não: devagar
 
Não: devagar.
Devagar, porque não sei
Onde quero ir.
Há entre mim e os meus passos
Uma divergência instintiva.

Há entre quem sou e estou
Uma diferença de verbo
Que corresponde à realidade.
Devagar...
Sim, devagar...
Quero pensar no que quer dizer
Este devagar...

Talvez o mundo exterior tenha pressa demais.
Talvez a alma vulgar queira chegar mais cedo.
Talvez a impressão dos momentos seja muito próxima...
Talvez isso tudo...
Mas o que me preocupa é esta palavra devagar...
O que é que tem que ser devagar?
Se calhar é o universo...
A verdade manda Deus que se diga.
Mas ouviu alguém isso a Deus?

Álvaro de Campos (30-12 1934)
In Poesia, Assírio & Alvim, ed. Teresa Rita Lopes, 2002


 
Corrida. Stress. Rotina e exigências. Quantas vezes nos esquecemos de parar ou nos lembramos de que não o podemos fazer? Quantas vezes não somos plenamente aquilo que queremos ser porque a caminho do nosso "eu" se metem atalhos que nos tiram do trilho? Quantos foram os passos dúbios, impelidos pela voracidade dos dias, por um mundo que não pára e que parece não se compadecer com a contemplação, com um viver sentido e na justa velocidade? Quantas vezes não somos, simplesmente, devagar?! Tenhamos a coragem de firmar o passo no chão, marcando o nosso próprio ritmo. A plenitude da existência não tem uma caixa de velocidades. Tem Deus; tem pessoas, momentos e partilhas. E reclama tempo.
 



“Álvaro de Campos nasceu em Tavira, no dia 15 de Outubro de 1890 (às 1.30 da tarde, diz-me o Ferreira Gomes; e é verdade, pois, feito o horóscopo para essa hora, está certo). Este, como sabe, é engenheiro naval (por Glasgow), mas agora está aqui em Lisboa em inactividade. (…) Álvaro de Campos é alto (1,75 m de altura, mais 2 cm do que eu), magro e um pouco tendente a curvar-se. Cara rapada todos — o Caeiro louro sem cor, olhos azuis; Reis de um vago moreno mate; Campos entre branco e moreno, tipo vagamente de judeu português, cabelo, porém, liso e normalmente apartado ao lado, monóculo. (…) Álvaro de Campos teve uma educação vulgar de liceu; depois foi mandado para a Escócia estudar engenharia, primeiro mecânica e depois naval. Numas férias fez a viagem ao Oriente de onde resultou o Opiário. Ensinou-lhe latim um tio beirão que era padre.” 
 
(Carta a Adolfo Casais Monteiro - 13 Jan. 1935, escrita por Fernando Pessoa)

Cristina Sousa
15.06.2012







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