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Edição 98 | 15 Maio 2013   
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A minha Itália não é Roma. Ou melhor... a minha Roma não é Itália.
Vivo há oito meses em Roma e acho que já posso dizer com mais ou menos segurança que não vivo em Itália. Os italianos, os romanos ainda mais, acabam por ser uma presença residual no meu dia-a-dia.
Vivo num colégio internacional, com mais 38 jesuítas, e romanos, nem um. Italianos, são com esforço quatro. Digo “com esforço” porque temos um calabrês, um sardo, um napolitano e isto da união da Itália, tem muito mais que se lhe diga, do que parece à primeira vista.
Mas então onde vivo eu? A verdade é que não sei bem... Algures entre Portugal (somos 6 e é o lobby mais poderoso da casa, sem dúvida!), a Polónia (outros 6, um dos quais um irmão com a vinheta da presença mais antiga da casa, sem qualquer hipótese de discussão do título), a Croácia (3), a Venezuela (2) (queriam ser paraguaios!), os E.U.A. (2), o Vietname (2), a Indonésia (2), Espanha (2), o Perú (1), o Bangladesh (1), o Sri-lanka (1), Malta (1), Nigéria (1), Brasil (1), Eslovénia (1), Bielorrússia (1), Moçambique (1) e a Argentina (1). Ora, fazendo uma média geográfica de todos estes lugares (nem sei o que isso possa ser, mas imaginemos que é uma coisa realizável) vamos parar a um sítio inesperado: Piazza del Gesù, 45 (conferir AQUI).
Há 471 anos, quando Sto. Inácio escolheu esta casa, já era o centro do mundo. E continua. Esta comunidade não é, e nunca foi, um não-lugar, como um Hard-Rock ou um Mac Donalds que são iguais em qualquer sítio do mundo. Pelo contrário, o Gesù é o lugar por excelência e por isso tem características muito especiais:
- As pessoas tendem a encontrar-se, mais cedo ou mais tarde. Encontrar-se a sério.
- Não há regras fixas de como descascar uma laranja, ou outra qualquer peça de fruta.
- A língua oficial é uma coisa inominável, só por acaso semelhante ao italiano. Diria que é uma latinada com influências eslavo-anglo-semitico-afro-orientais intensas. Com o domínio de apenas cerca de 200 palavras deste dialecto (afirma um companheiro jesuíta que só não é língua porque não tem um exército atrás de si) consegue-se viver perfeitamente em comunicação profunda e divertida.
- As horas de pequeno-almoço são por vagas, tendencialmente nacionais. Os lusos são, regra geral, os mais tardios.
- As coisas funcionam geralmente bem, sem se perceber bem como. Há uma organização e articulação naturais e uma generosidade magnânima que fazem as coisas acontecerem. Mesmo as aparentemente mais difíceis.
- O riso tem presença fixa e indispensável, mesmo em época de exames.
- Quem nunca viu com os seus próprios olhos um destes lugares a sério, não acredita que seja possível que exista.

Mas qual é o segredo que faz existir este lugar? (Desconfio que aquilo que indicam como sendo o segredo de Roma é um tiro ao lado! O segredo de Roma está na Piazza del Gesù, 45!)
Acho que antes de mais é a abertura a um acontecimento muito maior que nós, que se deu há cerca de 2000 anos: o Pentecostes. Pela primeira vez depois de Babel, puderam-se falar línguas diversas com o entendimento de todos. E de tal maneira pareciam tolinhos na sua alegria que outros diziam ser do efeito do álcool. Não sei porquê, mas soa-me familiar.
Esta abertura ao Espírito Santo (e, consequentemente, a Jesus Cristo e a Deus Pai) trabalha-se, e nós somos privilegiados filhos de Sto. Inácio de Loyola que nos deixou ferramentas incríveis para o fazer. A verdade é que de onde quer que sejamos, mais amarelos e de olhos em bico, ou escuros de carapinha, ou pálidos de cal e de nariz multiforme, falamos esta mesma linguagem de quem quer ser amigo de Jesus. E compreendemo-nos porque O queremos compreender a Ele cada vez melhor. E segui-Lo faz parte da nossa vida.
No fim, estou convencido de que é este o segredo de Roma. Da minha Roma, que não é Itália.

Francisco Campos, sj
15.06.2012







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