Desta vez queria partilhar convosco um texto, ou melhor, uma oração do padre Pierre Teilhard de Chardin, um Jesuíta francês da primeira metade do século XX: “A Missa sobre o Mundo”.
O padre Teilhard serviu como maqueiro durante a Primeira Guerra Mundial, vivia no meio das trincheiras com os soldados. Quando era possível celebrava com eles a Eucaristia, mas muito frequentemente não conseguia reunir as condições mínimas para a celebração (não tinha pão e vinho, por exemplo). Ao longo deste período foi desenvolvendo uma oração, com a estrutura de uma “Oração Eucarística”, ou seja a segunda parte da missa, que vem depois da liturgia da palavra.
Teilhard era um homem profundamente optimista. E como não ser? Ele sabia que vivia num mundo criado por Deus, e que nada do que existia à sua volta tinha a sua origem fora d'Ele. Claro que ele não era cego e estando no meio das trincheiras da Grande Guerra convivia diariamente com a dor e o sofrimento e isso não lhe era indiferente. Mas não se limitava a cruzar os braços e dizer: “se houvesse Deus, não havia o sofrimento” ou então “faz parte da vida sofrer, há que aguentar”.
Nos Exercícios Espirituais, na contemplação para alcançar Amor, Santo Inácio diz-nos para “considerar como Deus habita nas criaturas” (EE235) nas plantas, nos animais e em toda a criação. De modo semelhante, Teilhard dava à celebração da Eucaristia dimensões cósmicas que se estendem muito para além do pequeno mundo de cada um. Assim, no início de cada dia, contemplando este Universo que ele sabia habitado por Cristo e que é o mesmo Cristo, filho de Maria, morto e ressuscitado por nós que habita a profundidade da matéria, entregava como pão tudo o que no dia viesse a ser crescimento, vida, sucesso e vitória e como vinho tudo o que viesse a ser sofrimento, dor e angústias e “consagrava-os” no altar que é o Mundo. Assim, ao longo do dia, tudo o que acontecia à sua volta e era crescimento e vida era visto como pertencente ao Corpo de Cristo. Por outro lado tudo o que fosse sofrimento era visto como participação no Sangue de Cristo.
Aceitar o que corre bem como sendo parte do nosso percurso para Deus, como parte do Corpo de Cristo até parece normal e fácil de aceitar, mas acolher o cálice do sofrimento e fazer disso caminho de crescimento para Deus é um grande desafio que exige sempre da nossa parte uma atitude de confiança e de adoração entregando, com Santo Inácio, tudo o que sou a Deus dizendo: “tomai Senhor e recebei, toda a minha liberdade, a minha inteligência, a minha memória, tudo o que tenho e possuo, vós mo destes a vós o restituo. Dai-me o vosso Amor e a vossa graça que isso me basta” (EE234).
Numa primeira leitura da “Missa sobre o Mundo” pode parecer que Teilhard nos convida à passividade diante do que acontece. Não é nada disso! Na realidade consagrar os acontecimentos do dia como Corpo e Sangue de Cristo faz de nós, como cristãos, mais responsáveis pelo que acontece à nossa volta: as nossas acções, o nosso trabalho e o nosso empenho juntam-se à presença de Deus no mundo. Somos convidados a ser colaboradores com com o Criador e por isso desafiados a participar no desabrochar da criação até que “Cristo seja tudo em todos” (1Cor 15, 28). Ele não sugere que aceitemos passivamente os sofrimentos, mas que os encaremos como Cristo no horto das oliveiras: “Pai, afasta de mim este cálice, mas não se faça a minha vontade mas a Tua.” Isto é, encarar os sofrimentos e desilusões que nos batem à porta como parte da alguma coisa mais ampla que muitas vezes não podemos compreender no contexto do imediato.
Enfim, esta é a convicção de S. Paulo quando diz que “tudo concorre em bem para aqueles que amam Deus” (Rm 8,28). Isto significa que em tudo o que acontece podemos ver a presença de Cristo. Tudo o que vivemos pode ser visto e iluminado pela Luz de Cristo. Poderia parecer que a noção de pecado desaparece, mas não é assim. Na verdade pecamos quando não somos portadores da Luz de Cristo, ou melhor, quando não nos deixarmos iluminar pela Luz e assim acabamos por impedir que outros sejam iluminados pela Luz de Cristo que de nós poderia irradiar. Nestes 15 dias começar o dia agradecendo ao Senhor por tanto bem recebido. Agradecer antecipadamente tudo o que o dia vai trazer na certeza que Ele sempre nos escuta. Já agora, num momento de pausa ler (e rezar!) “A Missa Sobre o Mundo” de Teilhard de Chardin.
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