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"Bataille des Rouges et des Bleus" apareceu-me à frente pela primeira vez numa primavera adolescente e fez-me imediatamente parar, de coração sincopado, frente à tela. Tive de me sentar. A fotografia não faz jus à obra, que tem mais de um metro quadrado e que pulsa, vive e respira. Estava o meu mundo todo ali pintado.
 
 
Os bleus, rasgados, do espírito do bem, do mar salgado, das ondas - em tensão com os rouges, das paixões, dos perigos, das aventuras, do sangue.

 

Deixando de lado tudo o que é mundano, a cronologia das nossas vidas, estou convencida, não é mais que uma batalha entre os vermelhos e os azuis. Os despojos desta batalha são a vida vivida. A vida rica requer tanto de morte como de glória, de luta como de descanso, de guerra como de paz. Vermelho com azul, assim nos vamos construindo, pautando, conhecendo, dando.
 
"Porque a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós eterno peso de glória, acima de toda comparação, não atentando nós nas coisas que se vêem, mas nas que se não vêem; porque as que se vêem são temporais, e as que se não vêem são eternas."” [1]
 
A obra de Maria Helena é uma busca espiritual, pintada sem pudor, labiríntica como os corredores da alma. Um ponto de interrogação que teve respostas pontuais, como nós, os comuns, também experimentamos, quando nos é dada a Graça.

No final da vida, disse Maria Helena: "Às vezes, pelo caminho da arte, experimento súbitas, mas fugazes iluminações e então sinto por momentos uma confiança total, que está além da razão. Algumas pessoas entendidas que estudaram essas questões dizem-me que a mística explica tudo. Então é preciso dizer que não sou suficientemente mística. E continuo a acreditar que só a morte me dará a explicação que não consigo encontrar."[2]

 
A 6 de Março de 1992, Vieira da Silva morre em Paris. A explicação, acredito que a terá encontrado, vendo-se enfim frente ao seu Criador.

 
[1] 2 Cor 4,17-18
 

Matilde Torres Pereira
01.05.2012







Comentários
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2012-05-01 19:35:48
Nuno Malherio Sarmento,
Boa matilde gostei muito do texto! Ainda conheço pouco o que disse a Vieira da Silva, mas é um dos interesses que tenho, pela correspondencia, pela fundamentação conceptual.
Fosse a arte um veiculo constante para chegar ou fazer-nos viajar pelas questões da profundidade... Apesar de tudo e com mais confiança depois dessa precepção da vieira da silva, acredito que a arte serve exactamente para isso, ou concretiza o milagre de o conseguir.

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