Apolo, atingido pela seta de Eros, enche o seu coração de amor louco por Daphne. Tão louco e impulsivo, que o busca contra a vontade da amada, marcada pela seta do desamor que o repudia, impossibilitada de amar. Desesperada, foge de Apolo e já em suplício pede ao pai que a salve. Pneu transforma-a num loureiro. Que dor a da amada que sem capacidade de amar busca a fuga. Que dor a do amado que, buscando com todas as forças o seu amor, tortura a amada. Que pai é este, que para libertá-la da busca do amado transforma-a num loureiro? Como pode Eros, deus do amor, brincar com a amada e o amado desta forma? Os deuses devem estar loucos! Será que o nosso amor liberta, ou andamos a plantar árvores? Mas como dar provas do nosso amor se não for buscado e procurado? Como fazê-lo mantendo livre o amado? Quero amar intensamente o outro sem o prender ao meu amor. Que ele me ame livremente. Que o seu amor parta de uma vontade própria. De que modo busco o meu amor? Se Deus me amasse como um predador, a minha liberdade seria também tolhida. Transformar-me-ia em árvore. Estaria agarrado pela raiz a Deus como uma árvore à terra. Mas Deus fez-nos homens e mulheres, livres a caminhar pela terra. Porque Deus nos ama livremente, podemos correr em liberdade pelos bosques com o nosso amor. À imagem do amor de Deus, como busco o meu amor? Que liberdade dou ao meu amado? As nossas relações seriam sem gosto se faltasse a conquista. Teria sido Apolo mais feliz, se em vez de correr atrás de Daphne pela floresta adentro, a tivesse convidado a acompanhá-lo pelo deserto. |