Os Centros Universitários da Companhia de Jesus em Portugal têm-nos acostumado a alguns encontros, umas vezes óbvios, outras, insólitos. No passado dia 24 de Março, o CREU-IL (Centro Universitário do Porto) organizou o Fé e Ética e, no próximo dia 21 de Abril, o CAB (Centro Universitário de Braga) organizará o Fé e Arte. A pertinência destes encontros (Fé e Justiça, em Lisboa; Fé e Cultura, em Coimbra; Fé e Ética, no Porto; Fé e Arte, em Braga) é enorme, e justifica-se por diversos motivos. Comecemos pela via da provocação.
Metemo-nos onde (já) não somos chamados?Que a fé tenha intervindo em diversos campos da vida humana – desde a política à cultura, passando pela ética até à estética – parece indiscutível. O mesmo não se poderá dizer dos resultados dessa intervenção. Com uma história tão extensa – nos anos e nos protagonistas –, a Igreja construiu um património apetecível para amores e ódios, possivelmente com argumentos razoáveis para justificar um e outro estado de humor.
O facto de, culturalmente, nos termos cansado de linguagens com sabor “metafísico” (ou, diríamos, com conversas onde muito se fala mas pouco se diz), por um lado, somado ao mal-estar que tantos conflitos de interpretações suscitaram e suscitam, por outro, tornou os discursos sobre a fé pouco credíveis e, até, indesejáveis. No fundo, a fé tornou-se um problema, e não uma
boa notícia.
Quando os sermões passaram de momento inspirador (pela eloquência e pela luminosidade) a momento aterrador (não tanto por incutirem reverência mas por serem encenações de um determinado imaginário de
juízo final), a fé perdeu o seu carácter provocador para ser tomada sobretudo como discurso disciplinador. Em vez de despertar ânimo, a linguagem da fé tornou-se muitas vezes desanimadora e pesada.
Criticada pelos de fora, por ser suspeita de fantasiar e de alienar; desacreditada pelos de dentro, por ser motivo de bocejo, mais que de incentivo a uma nova vitalidade, a linguagem da fé foi-se tornando cada vez mais marginal. Ironicamente, a fé parecia ter deixado de “ser do mundo”. Há como que um fosso entre o ritmo da vida diária – a vida dos despertadores, das trocas de olhares nos transportes públicos, do cheiro a café, dos programas de fim-de-semana, dos beijos e abraços, dos conflitos e hesitações, das crises e das suas ambiguidades – e a vida da fé – a fé dos ritos, das exigências morais, dos desmancha-prazeres, dos discursos naftalínicos, dos padres e das freiras, dos ouros do Vaticano. De um lado está o mundo
real, do outro, o mundo
religioso. Por isso, para muitos estes encontros poderão ser vistos como uma tentativa de “ressuscitar o mofo”, como se a fé estivesse a tentar recuperar influência social, a contragosto da própria sociedade. Estaremos a meter-nos onde (já) não somos chamados?
As raízes subversivas da fé“Já não há judeu nem grego, escravo nem homem livre”. “Felizes os puros de coração”. “Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”. “Meu Deus, meu Deus: por que Me abandonaste?”. O impacto destas e doutras frases ao longo da história foi e é fortíssimo. Que política, que estética, que cultura, que vida social, que teologia depois de Jesus? Como poderemos explicar ou compreender que a vida de uma pessoa tenha sido objecto de tantas interpretações tão diversas, mas ao mesmo tempo tão ricas – ainda que a custo de conflitos?
O cristianismo parece nascer como desafio que, no limite, circula em torno de uma pergunta: como pode a vida de um só atingir a vida de todos? O mesmo Jesus foi, apesar de tudo,
tantos: o Jesus de João, Pedro, Tiago, etc. Quem diria que tal facilidade de acesso poderia ser, simultaneamente, a razão da força (porque convoca a multidão de pessoas e de aspectos) e da fraqueza do próprio cristianismo (porque persiste como possibilidade de desacordo)?
Estamos, pois, de uma forma simplificada, diante da raíz do problema. Por um lado, a vida de Jesus tem um poder de sugestão enorme: toca tudo e todos. Por outro, Jesus não pode ser
objecto de posse. Dizer “tenho a verdade” é uma forma de negação da própria verdade, tal como dizer “tenho-te” é uma traição do outro. O carácter subversivo da fé é, pois, essa sua simultânea força de atracção e de libertação: atrai tudo (de nós e do mundo), mas para que se instaure entre as partes uma relação livre e justa, onde cada qual é o que é.
A fé e os seus paresQuando falamos de ciência, arte, ética, etc., estamos a falar, desde logo, em dimensões da nossa vida: o nosso desejo de conhecer o mundo, de traduzir metaforicamente a nossa própria vida, de nos relacionarmos com os outros, etc. Ao promoverem estes encontros, os Centros Universitários estão, naturalmente, a procurar enfatizar planos específicos da experiência da fé. Que relação há entre
fé e ética? E entre
fé e arte?
Sendo encontros, não podem ser exercícios paternalistas do tipo: nós, crentes, vamos ensinar-vos umas coisas. Longe de uma lógica de domínio, estes encontros pretendem ser galáxias capazes de albergar muitos mundos. O desenvolvimento da ciência, da arte, da ética, da política corresponde ao aprofundamento de mundos imensos (mundos de linguagem – quem não se sente chinês ao ouvir um especialista numa área menos vulgar? –, de hábitos – cada profissão tem os seus estilos de vida –, preocupações). Encontrar-se com alguém implica
ter espaço para receber o seu mundo e, mais do que isso, aceitar partilhar mundos, nas suas correspondências, nos seus promontórios e nos seus recantos incomunicáveis. Por isso, estes encontros são expressão do desejo de fazer da fé um território de relações, simultaneamente universais (onde todos possam ter espaço) e únicas (para que cada um seja tal como é). A haver mudanças, essas virão do próprio processo de ganhar corpo para a comunhão entre diferentes pessoas e perspectivas, de um modo justo.