Fazer o quê de todo este mel, Do crescendo das tardes em ouro, pólen e Verão, Se a vida é, afinal, sempre e só Dos outros, afinal, sempre e só Transformada em vala comum, Onde tentar o bem nosso Pelo bem dos outros Já não é sequer o mal menor, Cansados de mais, brutos de mais, Nós mesmos de mais, Sempre morais numa impossível E exaltada falta de paciência, Numa pressurosa falta de ternura, Nós sempre tão corredios, Sardónicos até nos estertores, Impérvios a essa música que nos tece Perdidos em pleno espaço? Há ainda um risco para nos salvar De toda esta segurança, Do geométrico, bancário, ergonómico Acomodar-se da alma, Do espírito flácido e famélico, Algo que nos possa restituir O gosto dos dias, Esse que teremos na boca Em hora extrema, ainda o gosto dos dias? Qual o gosto dos meus dias?
Nuno Rocha Morais "Últimos Poemas", Quasi, 2009
Comentário: Nestas tardes em ouro, pólen e Verão, atrevo-me a perguntar-me: Qual o gosto dos meus dias?  “Nuno Rocha Morais (Porto, 1973 – Luxemburgo, 2008) licenciou-se em Línguas e Literaturas Modernas (Estudos Portugueses e Ingleses) na Faculdade de Letras da Universidade do Porto em 1995 e aos 19 anos iniciou a vida activa na área do jornalismo no Comércio do Porto. Em 1999 passou a integrar a equipa de tradutores da Comissão Europeia, no Luxemburgo, desempenhando desde 2007 as funções de coordenador linguístico do departamento de língua portuguesa. «Últimos Poemas – título que, ironicamente, desde os 20 anos, ainda estudante, elegeu como o título da primeira obra a editar – foi o livro que quis deixar «organizado» e foi publicado «sem qualquer interferência na sua vontade e disposições» pela Quasi Edições, em 2009. «Composto por cerca de uma centena de textos produzidos ao longo dos muitos anos em que se apurou o compulsivo labor de escrita do autor – entretanto disseminado por publicações periódicas» como Cadernos de Serrubia, Cadernos do Tâmega, a revista Hey!, Notícias de Penafiel, Anto e o boletim «a folha», entre muitas outras –, o livro, com prefácio de Joana Matos Frias e ilustrações de Rasa Sakalaitė, «oferece-se como uma espécie de palimpsesto sob o qual parecem esconder-se as entrelinhas de outras centenas de textos que efectivamente existem nos inúmeros manuscritos e dactiloscritos que se multiplicam nas "arcas" que deixou.» «Obra de formação e de síntese», dá a conhecer «um pequeno segmento de quase 20 anos de trabalho poético sem qualquer pré-ordenação ou identificação de natureza cronológica, o que converte o corte diacrónico numa sutura de efeito sincrónico.» (excertos do prefácio)." (Fonte: Wikipédia) |