Timor Leste é um país com um potencial turístico muito grande. Apesar de pequeno, tem uma grande diversidade de paisagens, desde os arrozais de Baucau até às montanhas do Suai. Para quem gosta de turismo de natureza, isto é um paraíso. O problema ainda são as infra-estruturas. Há uns tempos, num artigo sobre turismo em Timor Leste uma australiana ou afim dizia que Timor era muito bom para fazer todo o terreno…pois está bem, fora de Dili quase não há estradas!!! O alojamento fora de Dili é muito complicado, há uns “resorts” com uns bungalows muito típicos, mas onde é preferível ficar em tendas sob a pena de se ter companhia de Mus musculus (vulgo ratos) toda a noite. Nalguns sítios há restaurantes (ou afins…), mas corremos o risco de receber dois tipos de respostas: "a cozinheira está a descansar" ou "tem mas não há". Às vezes há surpresas boas: umas guesthouses com boas condições e preços ainda melhores, uma qualquer Tia Rosa que nos abre a porta de casa e nos serve um café e uma mandioca cozida, as Irmãs que nos convidam para um cafézinho.
Mas um dos grandes atractivos de Timor Leste é o mergulho. Primeiro, porque a água é quente, o que para uma “são martinhense” de gema como eu, provoca um grande choque térmico (mas bom). Depois, porque a pequena ou grande profundidade se podem ver e apreciar os corais, peixes de todas as cores, tamanhos e feitios, tartarugas e, com sorte, o avô dos timorenses: o senhor crocodilo. No que diz respeito ao crocodilo, segundo o que dizem os locais, só come as pessoas más. Ainda assim, e nunca fiando, como os há e muitos, em caso de dúvida o melhor é não mergulhar (mesmo molhar os pés…enfim…).
Depois de muita insistência de um amigo meu, professor de Informática e instrutor de mergulho, lá me decidi a fazer o cursinho e aprender a mergulhar a mais profundidade com garrafa. O curso tem duas partes. Uma teórica em que vemos uns simpáticos dvd’s que mostram todas as coisas horrorosas que nos podem acontecer se não fizermos a descompressão como deve ser, desde saltarem os chumbos dos dentes até basicamente morrermos. Temos também que ler um livro, onde se aprende que fazer mergulho é “ir a sítios, conhecer pessoas e fazer coisas…” e uns testes escritos. Para quem ainda não desistiu até aqui segue-se uma parte de mergulho propriamente dito, com a parafernália toda, primeiro numa piscina e depois no mar. Este é também um desafio, temos que fazer inúmeros exercícios sobre todas as coisas que nos podem acontecer dentro de água, desde um simples embaciamento de óculos (exercício que me custou uma aula extra) até ficarmos sem ar…de qualquer tipo.
Se ainda não desistimos até aqui, temos finalmente a oportunidade então de disfrutar uma das mais fantásticas experiências que já tive. Estar a 15-20m de profundidade, e ver todo o tipo de vida marinha. Doris, Nemos, tartarugas, verdadeiros jardins debaixo de água. Pessoalmente eu tenho imenso medo, e nos primeiros mergulhos, com os nervos, fiquei sem ar muito rapidamente (primeiro que todas as outras pessoas) e tive que subir com o ar do instrutor. Mas, quando conseguimos descontrair completamente, esquecer que estamos a uma data de metros de profundidade e que não podemos sair dali de qualquer maneira, e ficar só assim parados a ver é uma coisa fantástica. Quando nos deixamos envolver completamente, então é todo um mundo novo que se abre. Não há ali mais nada, mais nenhum barulho que nos tire a atenção do que nos rodeia.
E é assim um pouco também a nossa vida. Quando deixamos de nos preocupar com a profundidade a que vamos, se vamos ter ar, ou não, que chegue, e nos deixamos envolver pelo mundo, pela natureza, pelas pessoas passamos a ver tudo com outros olhos e tudo, definitivamente, muito mais bonito. |