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Edição 98 | 15 Maio 2013   
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Sede o meu refúgio, Senhor.
em vós, Senhor, me refugio,
jamais serei confundido
sede a rocha do meu refúgio
e a fortaleza da minha salvação;
porque vós sois a minha força e o meu refúgio,
por amor do vosso nome, guiai-me e conduzi-me (…)
salmo 31(30).

“O termo hebraico normal para dizer «rocha», «rochedo», «pedra firme», é tsûr ou sela‘, que designa também Deus no Antigo Testamento por 33 vezes, duas delas no Salmo que 31(30). Mas o hebraico também conhece o termo kef, aramaico kêfa’, que designa a rocha, não tanto na sua solidez, mas a rocha escavada, oca, espécie de gruta que serve de lugar de refúgio e acolhimento, onde os pássaros fazem os seus ninhos, os animais guardam as suas crias e os homens se refugiam em caso de guerra: não é sólido, mas dá solidez e protecção a uma vida nova. Esta segunda cascata de termos, que traduzem a ideia de guardar, proteger, envolver, alarga-se num vasto campo onomatopaico: kaf, palma da mão; kef, rochedo esburacado (grutas); kêfa’ (aramaico), rochedo esburacado; kêfãs (grego), rochedo esburacado e acolhedor, nome dado a Pedro (Jo 1,42), que aparece uma única vez nos Evangelhos; kîpah, folha de palmeira, e solidéu de veludo ou tricotado com que os judeus cobrem a cabeça, assinalando a protecção de Deus; kafar, cobrir, perdoar; kaporet, cobertura, perdão”
(D. António Couto in mesadepalavras.wordpress.com)

Em 1993, o escultor Basco Eduardo Chillida, já falecido, recebeu uma encomenda do Governo das Canárias para realizar um monumento/escultura etnográfico na Montanha de Tindaya, em Fuerteventura, que a converteria numa referência mundial. A ideia de Chillida consistia em abrir um canal na montanha e fazer um cubo interno de 50x50x50 metros, com dois túneis de 200 metros que funcionassem como clarabóias. Eduardo Chillida disse: "a minha única ambição é criar um espaço útil para toda a humanidade, para que quando um ser humano entre nesse cubo vazio de 50 por 50 por 50 metros sinta a sua plenitude e a pequenez humana".

Em universos aparentemente tão diferentes – a bíblia e a escultura contemporânea – descobrimos a mesma imagem. Um Deus casa – em rocha firme – uma gruta, onde se dá o encontro com a Humanidade.

Talvez construir sobre a rocha, seja escavar em Deus.

João Sarmento, sj
01.07.2012







Comentários
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2012-07-03 20:31:54
Uma pedra viva por dentro
Mário Garcia, Soutelo
Chillida encontrou um grande exegeta (ou esegeta?). É que tu, João, não estás fora; estás dentro! Só de ver/ler já se tem vontade de entrar.

2012-07-03 16:39:10
Nuno Malheiro Sarmento,
Como sempre grande Jonas, mais uma grande obra, uma ponte bem traçada e uma frase final a partir.

É isto mesmo... É urgente criar pontes, para dar profundidade e para aprofundar. Uma coisa numa margem a caminho de outra que vem doutra margem, permite que continuemos o caminho.

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