home   |    quem somos   |    os sj   |    espiritualidade inaciana   |    contactos   |    ligações   |    agenda   |       |   
Um Vídeo
Uma Imagem
Um Poema
Cartoon
Crónica de Longe
O Mundo à nossa volta
Entrevista
Histórias
Ler um Livro
Ir ao Cinema
Ouvir música
Entrar no Museu
Reflexão
Razões da Fé
Espiritualidade Inaciana
Editorial
Ligações
Arquivo
Edição 98 | 15 Maio 2013   
APROFUNDAR
  ESPIRITUALIDADE INACIANA  
    Ser agradecido
NºS ANTERIORES
Reflexão
Entre o esforço e a confiança
LUÍSA SOBRAL

Razões da Fé
O Espírito Santo na Revelação e na Igreja
RUI FERNANDES SJ



Entre os pecados que os homens cometem, ainda que afirmem alguns que o maior de todos é a soberba, sustento eu que é a ingratidão, baseando-me no que se costuma dizer, que de mal agradecidos está o inferno cheio.

Estas palavras que Cervantes põe na boca de Dom Quixote (vol. 2, capítulo LVIII) podem parecer antiquadas ou deslocadas numa sociedade como a nossa, em que onde os self-made men são tidos como modelos a seguir e são valorizadas as conquistas e os direitos individuais acima de qualquer outra coisa.

Expressões como «graças a Deus» ou «bem haja» parecem antiquadas, ainda que ditas em ambiente cristão. Nelas se mostra o reconhecimento de algo de bom que aconteceu em nosso favor e com elas nos dirigimos ao nosso benfeitor numa atitude humilde, contrária à soberba. O nosso «obrigado», mais comum, embora possa exprimir gratidão, põe o acento no nosso lado, no sentirmo-nos devedores. É verdade, somos devedores em muita coisa, mas numa sociedade de mercado corremos o perigo de a dívida ficar saldada depois de eventualmente termos retribuído o favor ou a generosidade com que fomos presenteados. Feitas as contas, podemos inconscientemente pôr um fim à gratidão e à memória do bem recebido.

Talvez não seja um acaso o facto de as duas cartas de Sto. Inácio mais antigas que conhecemos serem dirigidas a Inês Pascual, sua primeira e grande benfeitora. Na primeira dessas cartas, de 1524, Inácio exprime o seu cuidado e pesar a Inês, depois da notícia da morte de uma cara amiga. Termina a carta dizendo: por amor de Nosso Senhor que nos esforcemos n’Ele, já que tanto lhe devemos, porque muito mais depressa nos cansamos em receber os seus dons que Ele em no-los dar.

A segunda carta, de 1528, mais se poderia considerar um postal escrito de Paris: 
Considerando a muita vontade e amor que, em Deus Nosso Senhor, sempre me tivestes, e em obras mo mostrastes, pensei em escrever-vos esta [carta] e por ela dar-vos a conhecer o meu caminho depois de ter partido de junto de vós. Com próspero tempo e saúde intacta, por graça e bondade de Deus N. S., cheguei a esta cidade de Paris aos dois de Fevereiro, onde estou estudando até que o Senhor outra coisa me ordene. 
Muito gostaria que me escrevêsseis, se o Fonseca respondeu à carta que escrevestes e o quê, ou se lhe falastes.

Em ambas as cartas Sto. Inácio reconhece-se devedor, mas devedor não só de coisas que se possam pagar ou trocar. Há favores e graças, que recebemos e que são simplesmente impossíveis de retribuir. Inês Pascual, por exemplo, acreditou em Inácio, no seu projecto, na sua capacidade, e por isso o ajudou com o que tinha. Nas cartas vemos um Inácio reconhecido para toda a vida. Ainda que pudesse retribuir em palavras e gestos de gratidão, esta não se extinguia. 

Talvez também não seja irrelevante que, no início dos Exercícios Espirituais, o modo de fazer o exame geral de consciência comece por «dar graças a Deus nosso Senhor pelos benefícios recebidos» (EE43), e que no fim dos Exercícios Santo Inácio insista ainda em «pedir conhecimento interno de tanto bem recebido, para que eu, reconhecendo-o inteiramente, possa, em tudo, amar e servir a sua divina majestade» (EE233). 

Cervantes, numa outra passagem, afirma que a ingratidão é filha da soberba. E de facto, estão muito ligadas. Nos Exercícios, a soberba é o conteúdo do sermão do inimigo de Cristo, ao que Santo Inácio apresenta a humildade como o antídoto (EE142, 146). Quando somos agradecidos e reconhecemos que outros nos fazem bem, de alguma forma elevamo-los em relação a nós, numa atitude humilde de quem não é auto-suficiente. E a gratidão, assim como o amor, se não encontra meios para se expressar, é como uma semente que nunca germina. 

Para este mês ou o próximo, que para muitas pessoas marca o fim de um ciclo, proponho fazer uma revisão agradecida dos acontecimentos e depois exprimir a gratidão. A Deus, aos outros, à vida. Acrescento um vídeo que pode ser inspirador.



Frederico Lemos, sj
01.07.2012







Comentários
Insira o seu comentário
 Nome
 Email (não será publicado)
 Localidade
 Título

Nenhum comentário encontrado.

80   DESCANSO
Frederico Lemos, sj 01.08.2012

79   A LEITURA ESPIRITUAL
António Valério, sj 15.07.2012

77   A MISSA SOBRE O MUNDO
Marco Cunha, sj 15.06.2012

76   UMA CURIOSA "AUSÊNCIA"
António Valério, sj 01.06.2012

75   15 DIAS COM PALAVRAS INACIANAS
Pedro Cameira, sj 15.05.2012

ver mais
SOBRE O MESMO TEMA
Entrevista
17   SIMPLICIDADE AO PALCO - CONVERSA COM MARIA DURÃO
João Delicado, sj 15.01.2013

O Mundo à nossa volta
00   COM A AJUDA DOS MEDIA
Zé Maria Brito, sj 15.01.2013

Ler um Livro
48   VIVER O EVANGELHO - O ÚLTIMO RETIRO DO P. FRANÇOIS VARILLON, S.J.
Gonçalo Noronha de Andrade 15.01.2013

ver mais
Província Portuguesa da Companhia de Jesus © 2013

última actualização: 15.05.2013

comentários e sugestões: Contactar +