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Edição 98 | 15 Maio 2013   
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MARIA FRANCISCA MACHADO LIMA

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Barba?
FRANCISCO RODRIGUES (PICA)


Era uma vez um menino
Em seu jardim a brincar.
(Brincar, brincar, não brincava,
Sempre, sempre a meditar!)
Os outros vinham de longe
E a correr, para o levar.
(Correr, correr, não corria,
porém ficava a cismar.)
Na tarde de ouro se ouviam
Seus gritos enchendo o ar.
(Ele gritar, não gritava,
Mas calava-se a pensar.)
O mundo andava de roda
e tudo à volta a girar!
(Ele no entanto, cantava
Só a ver, a contemplar.)
E tudo quanto se via
E tudo quanto passava,
Nos seus olhos se detinha,
Na sua alma ficava.

Tenho sido espectador
E toda a vida serei.
Estar de fora da dor,
Aquém do palco, do riso
Longe da arena do mundo!
É insensatez? É juízo?
É bom? É mau? Não no sei.
Mas quanto drama profundo,
Devagar, devagarinho,
Sem voz, sem gesto, sem cor,
Se infiltra tão de mansinho
Na alma do espectador?

Cabral do Nascimento
In Cancioneiro


A palavra "Teatro" significava para os gregos o lugar de onde se via ou contemplava alguma coisa. A palavra "Espectador", de raiz latina, enquadra-se na mesma família semântica, significando “assistir”.
Ora, nós (cada um de nós) somos esse lugar por trás das retinas, onde Deus deposita a realidade que criou. Somos os adoradores, os contemplativos com quem Ele conta.
Contudo, a verdade é que o nosso mundo anda mais preocupado com o que pode oferecer a Deus, do que interessado no que Deus lhe quer oferecer. É um mundo apressado e hiperactivo. Cada vez menos nos propomos parar para escutar ou sentir as coisas, tal como elas são e seriam mesmo sem nós. O indivíduo é identificado pelo seu trabalho, pelas suas experiências e aventuras. Parar é morrer, diz-se. Talvez...
Demos graças a Deus.
Poeta português, nascido em 1897 e falecido em 1978, natural do Funchal, veio para o continente em 1915, onde se viria a licenciar em Direito pela Universidade de Coimbra. Foi professor, conservador das bibliotecas e arquivos nacionais e director do arquivo distrital e do Arquivo Histórico da Madeira. Colaborou na revista coimbrã Ícaro e foi o organizador da segunda série da antologia das Líricas Portuguesas, sendo ainda responsável pelos Poemas Narrativos Portugueses e pela Colectânea de Versos Portugueses. A sua poesia foi revelada por Fernando Pessoa e situa-se entre o Saudosismo e o Modernismo, constituindo um rigoroso registo poético, num tom misturado entre a devoção e a zombaria da pluralidade psíquica. Aliás, o lema dos Cadernos de Poesia “A poesia é só uma” é da sua autoria. A sua estreia poética data de 1916 com os sonetilhos As Três Pincesas Mortas Num Palácio em Ruínas, que levou Pessoa a considerá-lo um poeta “Digno de Orpheu”. Seguem-se-lhe Além Mar, Litoral e Cancioneiro, obra distinguida com o Prémio Antero de Quental. Escreveu também literatura infantil, foi historiados e um exímio tradutor, divulgando na nossa língua grandes nomes da literatura inglesa, norte-americana e francesa. 

Cabral do Nacimento. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2012. [Consultado 2012-06-21]. Disponível em: http://www.infopedia.pt/$cabral-do-nascimento.

Filipe Noronha
15.07.2012







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