Era uma vez um menino Em seu jardim a brincar. (Brincar, brincar, não brincava, Sempre, sempre a meditar!) Os outros vinham de longe E a correr, para o levar. (Correr, correr, não corria, porém ficava a cismar.) Na tarde de ouro se ouviam Seus gritos enchendo o ar. (Ele gritar, não gritava, Mas calava-se a pensar.) O mundo andava de roda e tudo à volta a girar! (Ele no entanto, cantava Só a ver, a contemplar.) E tudo quanto se via E tudo quanto passava, Nos seus olhos se detinha, Na sua alma ficava. Tenho sido espectador E toda a vida serei. Estar de fora da dor, Aquém do palco, do riso Longe da arena do mundo! É insensatez? É juízo? É bom? É mau? Não no sei. Mas quanto drama profundo, Devagar, devagarinho, Sem voz, sem gesto, sem cor, Se infiltra tão de mansinho Na alma do espectador? Cabral do Nascimento In Cancioneiro
A palavra "Teatro" significava para os gregos o lugar de onde se via ou contemplava alguma coisa. A palavra "Espectador", de raiz latina, enquadra-se na mesma família semântica, significando “assistir”. Ora, nós (cada um de nós) somos esse lugar por trás das retinas, onde Deus deposita a realidade que criou. Somos os adoradores, os contemplativos com quem Ele conta. Contudo, a verdade é que o nosso mundo anda mais preocupado com o que pode oferecer a Deus, do que interessado no que Deus lhe quer oferecer. É um mundo apressado e hiperactivo. Cada vez menos nos propomos parar para escutar ou sentir as coisas, tal como elas são e seriam mesmo sem nós. O indivíduo é identificado pelo seu trabalho, pelas suas experiências e aventuras. Parar é morrer, diz-se. Talvez... Demos graças a Deus. Poeta português, nascido em 1897 e falecido em 1978, natural do Funchal, veio para o continente em 1915, onde se viria a licenciar em Direito pela Universidade de Coimbra. Foi professor, conservador das bibliotecas e arquivos nacionais e director do arquivo distrital e do Arquivo Histórico da Madeira. Colaborou na revista coimbrã Ícaro e foi o organizador da segunda série da antologia das Líricas Portuguesas, sendo ainda responsável pelos Poemas Narrativos Portugueses e pela Colectânea de Versos Portugueses. A sua poesia foi revelada por Fernando Pessoa e situa-se entre o Saudosismo e o Modernismo, constituindo um rigoroso registo poético, num tom misturado entre a devoção e a zombaria da pluralidade psíquica. Aliás, o lema dos Cadernos de Poesia “A poesia é só uma” é da sua autoria. A sua estreia poética data de 1916 com os sonetilhos As Três Pincesas Mortas Num Palácio em Ruínas, que levou Pessoa a considerá-lo um poeta “Digno de Orpheu”. Seguem-se-lhe Além Mar, Litoral e Cancioneiro, obra distinguida com o Prémio Antero de Quental. Escreveu também literatura infantil, foi historiados e um exímio tradutor, divulgando na nossa língua grandes nomes da literatura inglesa, norte-americana e francesa. |