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Edição 98 | 15 Maio 2013   
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Agrada-me a liberdade que podemos tirar de uma obra de arte.

O meu mestre (um professor da faculdade a quem deixei de conseguir chamar apenas de professor) dizia que devíamos ir pelo menos duas vezes ver uma mesma exposição que estivesse a decorrer num museu. Na primeira vez olhávamos a obra e deixávamo-nos ir para onde ela nos levava. Algumas não levavam a lado nenhum, outras encaixavam em cada um, numa história pessoal, e podiam trazer à tona este ou aquele assunto, esta ou aquela sensibilidade.

Só numa segunda visita (que se podia tornar uma terceira ou quarta... lembro as exposições permanentes às quais podemos ir vezes sem fim) podíamos então aproximarmo-nos das letras afixadas na parede e ver o nome da obra, imaginando afinal o que quereria o autor dizer com aquela imagem, aquela forma, aquele gesto.

Experimentei e experimento várias vezes estes tempos de visita. Percebo por aqui que a arte nos traz mais do que às vezes imaginamos. Muitas vezes matamos a possibilidade de as coisas nos falarem cá dentro e nos tocarem só porque começamos por ver o que as mesmas coisas disseram ao outro, neste caso ao artista. E como esse sentido não encaixa em nós, a obra já não nos interessa.

Folheio vezes sem conta este livro do arquitecto Le Corbusier, Poéme de L'Angle Droit. Desconheço inteiramente o seu sentido mas toca-me a intensidade do desenho, profundo e simbólico que parece querer ser ícone.

Viajo muitas vezes até esta imagem das duas mãos entrecruzadas.
Duas mãos de dois seres que se cruzam. Uma mão sobre a claridade do sol, outra sobre a penumbra da lua, formam no exacto ponto médio de contacto uma linha recta que parece abrir uma porta.

Fixo-me na ideia da recta que aponta caminho e abre portas.
Fixo-me na ideia dos sois e luas que temos nos nossos dias, dos momentos de luz e nos momentos mais difíceis de penumbra.
Fico na ideia de um caminho que não se faz sozinho, senão entrecruzado em relações e laços.

Marta Pupo
15.07.2012







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