A Maria estava no cimo do escorrega. Tinha subido dezasseis degraus, daqueles vertiginosos sem fundo, que rangem de cada vez que se apoiam neles os pés. Subia-os todos os dias e ficava ali no cimo, sentada, a olhar. De cada vez que alguém se aproximava, levantava-se e descia pelo mesmo caminho, pelos mesmos degraus. Aproximei-me e incentivei-a a escorregar. A Maria pôs-se de pé e disse: “Não consigo!” Como é que alguém que tinha subido 16 velhos degraus podia ter medo de deslizar, de se deixar escorregar numa tábua de madeira? Agarrou-se com força às minhas mãos e depois de muitas palavras de ânimo e de olhos bem fechados, desceu. Subiu de novo e desta vez dei-lhe só uma mão. Na vez seguinte, desceu sozinha. Às vezes o mais simples é o caminho mais árduo, mais exigente. Tendemos a querer controlar tudo, saber tudo, sem dar espaço muitas vezes a que a vida nos espante e surpreenda. Subir degraus é, à partida, uma tarefa difícil. Implica coordenar os apoios de cada pé, das pernas, por vezes das mãos e centrar em todo o processo o olhar. Deslizar implica deixar-se ir, deixar-se guiar, apenas isso. Parece simples, mas envolve algo que não podemos controlar. Implica confiar e deixarmo-nos guiar, de olhos abertos ou fechados. A nossa vida tende entre estas duas aprendizagens e tempos, o da técnica e esforço pessoal, o da confiança e entrega. A Maria, aos três anos, vai aprendendo as duas. |