«Há uma linha que separa»: assim começam os anúncios de uma conhecida operadora de televisão por cabo. A linha é, de facto, símbolo de divisão, desde a matemática (pensemos nas fracções) até à geopolítica (lembremos as linhas de fronteira). A linha define contornos, isolando figuras, traça limites e distingue. A linha é por isso também linha de orientação, que arruma a realidade pelas divisões sucessivas a que procede (ocorre-nos a imagem de um organigrama), tornando-a inteligível, mas também estanque, fechando-nos à surpresa. A linha que, pela diferença, cataloga quase sempre não dialoga.
Nesta edição do essejota fala-se muito de linhas, até explicitamente. Há uma linha, em Moçambique, país em construção, que separa muzungus e locais, ricos e pobres. Há uma linha, no Irão, que afasta pai e filho, aquele incapaz de ver para lá da cegueira deste. Há uma linha, na História, que desliga modernidade e cristianismo, pondo a validade do último em questão. Há uma linha, na minha vida, que me protege da «arena do mundo» e me deixa no paradoxal papel de espectador, «fora da dor» — mas qual a sua verdadeira espessura? É difícil algo não se ir infiltrando de mansinho na alma, como diz o poema, turvando a clareza da distância fixada.
Ao espinho desse desassossego respondemos o mais das vezes na forma tímida e anónima da falsa, porque medida, entrega, do dar ordenado, alinhado e limpo, sem a coragem do s-alto, de cruzar a linha. Esse, porém, é o grande desafio: atravessar em direcção ao outro. Pode-nos ser pedido «só um bocadinho» (e o gesto desdobra-se para lá do nosso olhar) ou exigido mais: «trabalhar pelo bem comum» pode impelir-nos até a abandonar o emprego. Quando somos capazes de ultrapassar a linha que nos divide, de estender a mão até encontrar a do outro, a linha abre-se numa porta, na metáfora pintada de Le Corbusier. Em Cristo, esse desalinhado, Deus estendeu a mão até à Humanidade. Ele não se limitou a criar o mundo e a abandonar-nos («a criação é um trabalho a tempo inteiro», de resto), mas deu-nos, dando-Se, na cruz (a reunião da linha que vai do céu à terra com a que vai de um homem a outro), o exemplo maior do Amor trans-linear a que nos convida. |