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Edição 98 | 15 Maio 2013   
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“Dê sangue. Vai ver que não custa nada e vai sentir-se realizado”

(slogan de campanha para doação de sangue em Portugal)



Sob a égide do modernismo e da sede de novidade, a sociedade actual vai suscitando novas causas. Dos preocupantes problemas ambientais à questão da segurança infantil, do sofrimento dos animais à problemática da solidão dos idosos, tudo constitui hoje uma questão emergente e carente de resposta. Tudo constitui hoje causa susceptível de solidariedade, indignação, objecto de movimentos de redes sociais, fundamento para desencadear manifestos, artigos e discussões.

A solidariedade tornou-se moda. Das pessoas às instituições, passando pelas empresas, todos (e bem!) à sua medida, ocupam-se, ainda que parcial e indirectamente, de causas e de novos problemas emergentes. Outrora monopólio da Igreja, de IPSS´s e de ONG´s, a solidariedade tornou-se objecto social da sociedade civil.

Não obstante os ganhos evidentes para as causas emergentes – que de modo mais rápido, eficiente e prático vão obtendo resposta aos seus problemas – determinadas práticas tendem a desvirtuar e perverter o sentido e propósito da solidariedade (a humanização do dar e do receber, a vinculação moral à comunidade). 

Com efeito, à gratuitidade da dádiva contrapõe-se actualmente a necessidade de efectivas contrapartidas, sejam elas jantares, brindes ou concertos. Ao altruísmo da ajuda contrapõe-se a necessidade de publicitação de solidariedade. Ao sacrifício subjacente à dádiva (seja ele físico, económico ou material) contrapõe-se a solidariedade das sobras, do imediato, do fácil. À adequação e ponderação da ajuda, contrapõem-se respostas do tipo fast-food, vazias de futuro. À intemporalidade da dádiva (dar quando é preciso) contrapõe-se actualmente uma excessiva previsibilidade (dar quando convém).

Consumir, divertir-se, viver, tornou-se em si mesmo fonte de solidariedade. Ser solidário passou a custar apenas um euro. Dar passou a conjugar-se em “já dei”, expressão máxima da dádiva calculada e espectacular, que se esgota num sentimento efémero de dever moral cumprido.
Perante a actual avalanche de novas causas e modalidades de solidariedade, torna-se urgente adequar o “dar” à era da técnica, recuperando cristãmente, a gratuitidade e altruísmo do bom samaritano, o sacrifício do grão de trigo que morre na terra e a intemporalidade, discrição e radicalidade do abraço do pai à prodigalidade do filho. Expressão humana do dar à maneira de Deus. 


[1] Título parcialmente adaptado do livro “rezar na era da técnica” de Gonçalo M. Tavares, Editora Caminho, 2007.

Bernardo Cunha Ferreira
15.07.2012







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