Santo Inácio, no nº 100 dos Exercícios Espirituais, recomenda o seguinte ao exercitante, no contexto da segunda semana: “Para a segunda semana, e também daqui por diante, muito aproveita ler, por breves momentos, os livros da Imitação de Cristo ou dos Evangelhos e de vidas de santos”. Encontramos aqui certamente um eco da sua própria experiência de conversão, em que a leitura da vida de Cristo e dos santos levou Inácio a uma mudança radical na sua vida. A este propósito, a
edição 66 do Essejota já apresentou uma reflexão muito interessante acerca do impacto da leitura na vida espiritual, como construção de um imaginário que possibilita o encontro com Deus.
Pressupondo a reflexão indicada, o que agora se apresenta pretende dar algumas indicações importantes acerca da importância da leitura na vida interior de quem pretende aprofundar o seu caminho espiritual cristão. Não faltam títulos interessantes e temáticas muito úteis a este percurso. É natural que surjam algumas dificuldades, no momento em que se quer escolher um livro. Existe muita literatura sobre oração, vida cristã, temas da fé, vidas de santos, aspectos da vida de Jesus, sacramentos, etc. Então, por onde começar?
O primeiro passo consiste em tomar consciência da etapa em que a pessoa se encontra. Se é alguém que está a aprender a rezar, um bom livro sobre oração, com indicações teóricas e práticas, é uma ajuda excelente. Noutras fases, a pessoa sente necessidade de aprofundar determinada questão sobre Deus, a fé, a bíblia, a igreja, os sacramentos… nesta altura, procurar um livro que apresente de forma sintética estes temas é a melhor solução. A partir destes livros, podem seguir-se leituras mais aprofundadas, já que se adquiriu determinada linguagem que, no início parece um pouco especializada e difícil. Existem momentos da vida em que a pessoa necessita estímulo e exemplo para a vida cristã e para o seguimento de Jesus. Aqui pode-se recomendar leituras acerca da vida de Jesus, que explicam o mistério da Sua Pessoa, ou de vida de santos, que procuraram encarnar na própria vida o estilo do evangelho.
Para além desta tomada de consciência do percurso individual e da necessidade concreta do momento, é também essencial poder recorrer a alguém que conheça mais este tipo de literatura que indique um bom livro.
A leitura espiritual não substitui a oração, mas funciona, nos vários momentos e etapas da vida espiritual, como uma espécie de moldura ou paisagem onde a oração se enriquece e aprofunda. Temos a experiência como a boa literatura nos abre novos horizontes e nos faz sonhar o concreto da existência. Num campo como a espiritualidade, onde tocamos aspectos tão vitais e profundos acerca da vida, dos seus caminhos e do seu sentido, um bom livro pode ser um verdadeiro trampolim para uma nova fase e para um maior esclarecimento da fé. Aliás, este é um dos temas mais queridos ao Papa Bento XVI: a capacidade que cada cristão deve ter de dar razões da própria fé e cultivar uma autêntica inteligência da fé.